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Artigo: O processo de recuperação econômica mundial – por Tatiana Pinheiro*, do BNP Paribas

Artigo: O processo de recuperação econômica mundial – por Tatiana Pinheiro*, do BNP Paribas

O advento das vacinas e a ampla liquidez internacional via expansão monetária e fiscal, que deve perdurar neste ano, servem como combustível no processo de recuperação econômica mundial. A depender do processo de vacinação, em grande parte da capacidade de adequação das vacinas às novas variantes do Covid, este ano deve ser marcado pelo movimento de recuperação econômica, pois muito foi perdido em termos de riqueza mundial e será um longo caminho de volta ao patamar pré-Covid. De acordo com o FMI, a economia mundial deve crescer 4,4% em média entre 2021 e 2023, bastante acima dos 3,6% registrados no período de 2010 a 2019.

Se as expectativas de recuperação econômica mundial se provarem corretas, estaremos em um ambiente mundial favorável a diversificação das carteiras e tomada de risco. Isto levará a ampliação do fluxo de capitais que funcionará como vento em popa não só para as economias avançadas como também para todas as economias emergentes. As economias que tiverem melhores histórias para contar usufruirão da maior parte deste fluxo, enquanto as demais ficarão com os efeitos marginais deste aumento do fluxo de capital. Lembrando que este caminho auspicioso da economia mundial deve acontecer com volatilidade, como alguns ou vários solavancos ao longo do percurso.

Pontos chaves a serem monitorados: 1) o ritmo de recuperação da economia chinesa e seus efeitos no comércio mundial – recentemente o fortalecimento da economia chinesa impulsionou o comércio mundial, especificamente o de commodities, que estava estagnado no período pré-Covid –, 2) o potencial de pressão dos gastos fiscais sobre preços – o debate da reflação no mundo que pode antecipar os processos de normalização monetária, reduzindo o impulso monetário para movimento de recuperação econômica esperado – e, principalmente 3) o ritmo da vacinação mundial.

Até meados de fevereiro a vacinação já tinha sido iniciada em 90 países, mas apenas 2,4% da população mundial tinha recebido pelo menos uma dose da vacina. Ao mesmo tempo, o número de novos casos e de mortes ao redor do globo ainda estavam próximos de seus picos prévios. As dificuldades no processo de vacinação são muitas: capacidade de produção para fazer frente à demanda instantânea, logística e engajamento da população.

Neste jogo, a estratégia vencedora é a que contempla conhecimento técnico, organização e agilidade. Um caso, até agora bem-sucedido, é o processo de vacinação em Israel, onde quase 1/3 da população já recebeu todas as doses da vacina contra o COVID. Mantido este ritmo, Israel poderá dar em breve parâmetros para o mundo sobre qual é a melhor estratégia para o alcance da imunização em massa, sobre o tempo até o alcance da imunização e sobre a duração da imunização adquirida por vacinação nos vários cortes etários.

Um fator a ser ressaltado no processo de vacinação em massa é o efeito da restrição de oferta de vacina, principalmente para países populosos. Tudo indica que estamos no caminho certo, mas que este será longo. Por isso, antevemos que as políticas expansionistas fiscais e monetárias ainda serão necessárias para mitigar os impactos destruidores de capital físico e humano desta pandemia. Nesta linha, os EUA debatem mais uma extensão do programa fiscal de assistência social às famílias e empresas no montante de US$ 1,9 trilhões, sendo que no final de dezembro já tinham sido adicionados US$ 900 bilhões aos mais de US$ 2 trilhões já executados em 2020.

A União Europeia deve seguir o mesmo caminho. Esperamos que a China continue focando seus esforços fiscais para a manutenção dos negócios, assim como fez em 2020. Com isso, o panorama é de reforço do processo de recuperação econômica mundial, a despeito da piora recente da pandemia. Esperamos que as economias americana e chinesa cresçam 6,4% e 7,8%, respectivamente. Essas duas economias somam 40,7% do PIB mundial e contribuirão para que o mundo cresça ao ritmo médio de 6,9% este ano.

O Brasil deve seguir recebendo os efeitos positivos do cenário internacional de alcance da imunização em massa/controle pandêmico nas economias avançadas e de ampla liquidez internacional. Os pontos chaves a serem monitorados aqui são: 1) o processo de vacinação – o atraso no processo de vacinação, a limitação do número de opções de vacinas disponíveis e o colapso do sistema de saúde pública em algumas regiões do país aumentam a pressão por mais gastos fiscais, fora que ameaçam o ritmo de recuperação econômica iniciado no segundo semestre de 2020 –, 2) a condução da política fiscal – manter o regime fiscal vigente e aprovar as medidas fiscais estruturais são essenciais para o controle do endividamento público e, consequentemente, a manutenção da confiança na solvência do país (tão importante para a atração de capitais); 3) ritmo de recuperação da economia.

A vacinação é crucial para o sucesso da manutenção do atual regime fiscal e junto com o sucesso da votação da agenda de reformas estruturantes no congresso poderiam fazer com que o Brasil abocanhasse parte significativa do fluxo de capital que deve ser dirigido aos ativos emergentes neste ano. O redimensionamento dos gastos públicos é importante para a capacidade de atração de capitais, não só devido aos seus efeitos diretos nos cenários de inflação e de juros, mas principalmente devido ao seu impacto no crescimento econômico, via o canal das expectativas/confiança.

Infelizmente, a necessidade de extensão do auxílio emergencial, assim como, outros programas assistenciais para suporte aos empregos faz com que o processo de ajustamento fiscal seja mais lento do que o imaginado. Este pior cenário de condução de política fiscal eleva a taxa de juros neutra da economia e pressiona a taxa de câmbio. Estimamos que o patamar da taxa de câmbio está descolado dos fundamentos econômicos em torno de R$1,50, em grande parte devido à piora da percepção do risco fiscal.

Estimamos que a taxa de juro neutra da economia esteja em torno de 3% e o crescimento potencial brasileiro, pós-choque da crise sanitária, esteja ao redor de 1%. A combinação desses fatores com a taxa de câmbio depreciada e as pressões de custos de produção, devido à alta dos preços de commodities (reflexo do bom ritmo de recuperação econômica mundial) deve resultar na retirada do impulso monetário extraordinário já no curto prazo.

O começo legislativo em fevereiro sob nova direção das casas promete maior coordenação entre governo e congressistas e, consequentemente, o destravamento de pautas e aprovações de leis e emendas constitucionais já em tramitação. Contudo, aqui também o caminho é longo.

Do lado das emergências/prioridades econômicas estão a aprovação do orçamento de 2021 e a aprovação da PEC Emergencial (gatilhos para contenção da ampliação dos gastos obrigatórios). Em uma segunda fase estão a Reforma Tributária (simplificação do sistema tributário e aumento da eficiência econômica), a Reforma Administrativa (efetiva redução da folha de pagamento do setor público em percentual do PIB ao longo dos próximos anos), PEC dos Fundos (disponibilização de cerca de R$ 170 bilhões de recursos em fundos infraconstitucionais), Lei do Gás, entre outros.

Por isso, é importante monitorar os debates no Congresso neste primeiro semestre. Os problemas e as possíveis soluções estão todas mapeadas, logo a possibilidade de evolução do processo de aprovação das medidas de ajuste fiscal existe. O que pode atrapalhar essa evolução é a provável antecipação do início do debate eleitoral de 2022 para o segundo semestre de 2021.

Nosso cenário base continua sendo a manutenção do atual regime fiscal, a aprovação de alguns dos gatilhos de contenção de gastos obrigatórios para os próximos dois anos, a evolução da agenda de reformas microeconômicas, mas sem conclusão das reformas macroeconômicas, o que resulta em continuidade do processo de recuperação cíclica da economia, inflação sem folga com relação às metas e a retirada do estímulo monetário. Neste sentido, para os negócios será importante o monitoramento do debate político e a adoção de estratégias de diversificação dos investimentos.

*Economista-chefe da BNP Paribas Asset Management Brasil. Trabalha com análise macroeconômica desde 1995, em instituições financeiras. Juntou-se ao grupo BNP Paribas em outubro de 2018. Economista graduada pela FEA – USP, mestre em Macroeconomia pelo Insper SP e em Finanças e Econometria pela Queen Mary College (University of London).

Artigo: Há mais oportunidades no Brasil do que se pode pensar, especialmente na nova economia – Por Pablo Riveroll*

Artigo: Há mais oportunidades no Brasil do que se pode pensar, especialmente na nova economia – Por Pablo Riveroll*

Tem sido um ano desafiador para o Brasil. Além da pandemia, do ponto de vista dos investimentos, a queda acentuada do real agravou a fraqueza do mercado de ações. Mas, em meio a volatilidades e incertezas, a economia brasileira está mudando, e estamos vendo uma nova onda de empresas remodelando o ambiente de negócios.

Primeiramente, vale lembrar que o Brasil é a nona maior economia do mundo, com uma população de mais de 210 milhões de pessoas e uma média de idade de 33 anos. O tamanho do mercado é, portanto, significativo, enquanto a propensão para adotar novas tecnologias e abraçar a digitalização é alta.

Nova economia vs velha economia – Investir no Brasil hoje é muito mais do que os setores financeiro e de commodities da velha economia, que dominam o índice e as percepções dos investidores estrangeiros sobre o país. Os setores de matéria-prima e energia estão expostos a fatores macroeconômicos globais e enfrentam desafios ESG (ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês) importantes, enquanto o desempenho dos bancos está intimamente ligado à economia doméstica brasileira e eles não estão imunes à disrupção.

Existem vários exemplos de empresas disruptivas da nova economia, em uma série de setores. Algumas estão em índices amplamente seguidos, como o MSCI Emerging Markets Latin America, enquanto outras não estão – estes casos são onde a flexibilidade da abordagem de um gestor de recursos ativo pode ser mais importante. Além disso, muitas dessas empresas têm históricos de crescimento secular de longo prazo, ou seja, seus destinos são independentes do crescimento econômico geral. Na verdade, algumas delas estão vendo uma aceleração na demanda devido à pandemia.

Comércio eletrônico e fintechs – O Brasil possui um dos setores de comércio eletrônico e de fintechs mais dinâmicos e promissores em mercados emergentes. O comércio eletrônico representou apenas 7% do total das vendas no varejo no Brasil em 2019. Isso se compara a 27% na China e Coreia do Sul e 15% nos Estados Unidos; mas a participação do comércio eletrônico do Brasil deve dobrar nos próximos cinco anos.

As medidas em resposta à Covid-19 aceleraram a adoção do consumo online. Com lojas fechadas ou aberturas interrompidas por lockdowns, muitos consumidores recorreram aos varejistas online. Achamos que parte dessa mudança nos padrões de consumo será permanente.

Gráfico Schroders

Atualmente, as principais operadoras listadas no segmento de e-commerce são Magazine Luiza, Via Varejo, Lojas Americanas e B2W. Todas as quatro empresas vendem diretamente para compradores online, conhecidos como relacionamentos primários ou 1p. Eles também atuam como vendedores terceirizados – os chamados relacionamentos 3p -, permitindo que outros vendam seus produtos por meio de um marketplace. Com exceção da B2W, todas essas empresas também operam lojas físicas. Além disso, existe o Mercado Livre, marketplace latino-americano e provedor de pagamentos listado na Nasdaq.

Junto com seus pares globais, muitas dessas empresas viram a demanda aumentar durante lockdowns e medidas de distanciamento social. Mas também levou à adaptação dos varejistas. Por exemplo, com as lojas forçadas a fechar durante o bloqueio, a Via Varejo adotou medidas como a ferramenta “Me chama no Zap!”, em que os vendedores das lojas utilizavam as redes sociais para aconselhar e impulsionar as vendas, integrando online e offline de forma eficaz. Suas lojas físicas viram as vendas do primeiro trimestre caírem 7% em comparação com o mesmo trimestre de 2019; as vendas online aumentaram 48,6%.

Uma coisa que vale a pena notar é que, embora esses modelos existam em outras partes do mundo, tende a ser difícil acertar no Brasil. Conhecimento local e gestão talentosa são fundamentais. A Amazon, por exemplo, está no Brasil há anos com uma participação limitada no mercado de e-commerce.

As fintechs também viram uma aceleração durante a crise. Por exemplo, o Mercado Livre relatou que seu negócio de fintech viu o volume total de pagamentos aumentar 155,6% ano a ano no primeiro trimestre de 2020.

Outras fintechs incluem os provedores de soluções de pagamentos Pagseguro Digital e Stone. Mudanças regulatórias no segmento de pagamentos do Brasil removeram as barreiras de entrada e aumentaram a concorrência. Enquanto isso, a participação do dinheiro como forma de transação, que era superior a 40% em 2018, está caindo em meio ao aumento do uso de cartões e pagamentos digitais. Assim, o Pagseguro, que inicialmente se concentrou em micro comerciantes que operavam somente em dinheiro, e a Stone conquistaram participação de mercado em uma indústria em crescimento. A Corretora XP, plataforma de investimentos digital já listada em bolsa, é outro disruptor no setor de fintechs, assim como o BTG Pactual Digital. Historicamente, pessoas físicas e fundos são investidos por meio de bancos. Mas o mercado está se tornando descentralizado e a XP, com sua plataforma de investimento digital, ganhou participação de mercado. Além disso, o próprio setor, com o aumento da oferta digital, também cresce, atraindo novos clientes.

Locaweb e Linx, por sua vez, são facilitadores do e-commerce. A Locaweb oferece hospedagem na web e serviços de marketing online para pequenas e médias empresas. Houve um aumento na demanda durante a pandemia, quando a importância de ter uma presença online foi trazida à tona. A Linx é uma desenvolvedora de software que fornece sistemas integrados de gestão de negócios para varejistas, bem como ferramentas para o setor de e-commerce de forma mais ampla.

Saúde e educação

Saúde e a educação são os dois setores que registraram as maiores taxas de inflação nos últimos 20 anos. O gráfico abaixo usa os EUA para ilustrar esse ponto, mas a tendência tem sido um fenômeno global, impulsionado por ineficiências que resultam de vários conflitos de interesse e pela falta de inovação.

Gráfico 2 Schroders

Empresas como Hapvida e Notre Dame Intermedica Saúde estão revolucionando o setor de saúde no Brasil. Ao integrar seguro e saúde privada, problemas significativos podem ser eliminados, melhorando a eficiência e reduzindo custos. Uma abordagem tem sido oferecer um desconto para clientes de seguros que recebem tratamento nos hospitais das próprias empresas – onde o controle de custos é normalmente melhor e o uso do pronto socorro é mais racional, mas sem perda de qualidade do serviço. O resultado líquido é um produto mais acessível para os clientes, e o mercado de saúde privado está crescendo.

Em relação à pandemia, uma área que viu uma aceleração na adoção foi a telemedicina. Isso está em fase inicial de uso, mas está crescendo rapidamente. A telemedicina permite que o paciente consulte o médico por meio de um link de vídeo, sem a necessidade de contato físico. Além de ser mais seguro em momentos como o atual, é oferecido a um custo muito mais baixo e pode reduzir o número de visitas ao pronto socorro. Há outros benefícios também. Para quem vive em áreas mais isoladas, o acesso é melhorado. Enquanto isso, aqueles que procuram um especialista específico podem ser mais seletivos com quem procuram. Isso também pode ajudar a reduzir a inflação médica.

O setor de educação também tem visto uma falta crônica de inovação. Para muitas pessoas, a evolução na experiência de aprendizagem foi limitada e é semelhante à dos avós: estudar usando livros didáticos na escola sob a direção de um professor e com dever de casa para o dia seguinte.

Diversas empresas, como Arco, Cogna e Santillana (subsidiária da empresa espanhola Prisa) estão promovendo mudanças no setor. As empresas fornecem sistemas de aprendizagem para os níveis K-12 (ensino fundamental e médio), substituindo livros didáticos por uma combinação de material impresso e digital. Os sistemas incluem recursos como exercícios interativos, videoaulas pré-gravadas, aulas ao vivo, ferramentas de revisão e avaliação online. Os exames também são fornecidos pelas empresas e avaliados online, economizando tempo dos professores. Enquanto isso, os alunos, pais e a escola podem ver dados de desempenho comparáveis ​​para focar nas áreas de melhoria, tanto para alunos quanto para professores, em tempo hábil, permitindo planos de aprendizagem mais direcionados.

Uma grande melhoria na forma como o material educacional é consumido está em andamento. Os sistemas de aprendizagem são mais econômicos e o currículo é padronizado em todo o Brasil. Durante a pandemia, as escolas que já estavam acostumadas a usar os sistemas de ensino conseguiram se adaptar muito rapidamente aos estudos em casa.

Nova economia vs. velha economia – As tendências existentes devem se acelerar. Embora a emergência global de saúde possa estar contribuindo para mudanças nos padrões de consumo, muitas dessas tendências disruptivas já estavam em andamento. O que estamos vendo hoje é uma dicotomia da nova economia versus a velha economia. A balança dos índices provavelmente deixará de pender para o lado da velha economia e tenderá para a nova economia nos próximos anos. Notamos desde o início que estes são tempos de teste. E é uma tarefa importante investir com responsabilidade, apoiando negócios sustentáveis ​​e de alta qualidade, que enfrentam as dificuldades em decorrência da pandemia. Como investidores de longo prazo, continuamos a olhar para além da Covid-19 e como a vida irá evoluir. No Brasil, pensamos que entender a nova dinâmica da economia será uma parte fundamental do quebra-cabeça.

*Gestor de Renda Variável da Schroders para Brasil e América Latina

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