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Fundos de investimento ASG: Veículos importantes para as EFPC – por Luzia Hirata, da Santander Asset Management

Fundos de investimento ASG: Veículos importantes para as EFPC – por Luzia Hirata, da Santander Asset Management

O ano de 2020 foi um marco para o tema de sustentabilidade, especialmente no mercado financeiro. As três letras que traduzem os aspectos ambientais (A), sociais (S) e governança corporativa (G) tomaram conta dos debates e trouxeram luz a um assunto que não é necessariamente novo, mas que ganhou projeção em tempos de pandemia, juros baixos e de transformação no mercado de investimentos como um todo.

E justamente nesse período houve um crescimento significativo de fundos ASG, ou seja, fundos que, de alguma forma, consideram a incorporação desses aspectos nas suas estratégias e análises de investimentos. Somente no Brasil, estima-se que esses fundos captaram ao menos R$2,5 bilhões em 2020, segundo levantamento realizado pela Morningstar a pedido da Capital Reset. E de acordo com esse mesmo levantamento, foram lançados 85 novos fundos ASG em 2020, contra apenas 6 novos fundos com essa característica em 2019. Alguns números podem parecer tímidos, mas nunca antes se observou tamanha evolução em tão pouco tempo.

Em nível global, essa tendência também se concretizou: o patrimônio líquido de fundos de ações ASG cresceu de US$13bilhões em 2018 para US$85bilhões no ano passado, tendo a Europa dominando os investimentos ASG, com 72% do total no mundo.

Entretanto, a definição de um fundo ASG ainda não é tão clara e transparente para a maioria dos investidores. E há motivos para isso. Não existem regras ou padrões que mostrem as distinções entre fundos não-ASG e fundos ASG. Um fundo ASG pode ter investimentos em setores como tabaco, armamentos ou carvão mineral? E como proceder quando ocorrem eventos críticos do ponto de vista social, ambiental ou de governança? Como se faz a seleção das companhias? Como mensurar o impacto ambiental de diferentes setores, por exemplo, de uma mineração e de uma seguradora?

A alta demanda por esses fundos tem trazido muitos questionamentos desse tipo, o que leva a necessidade de discutir com mais profundidade dois aspectos importantes: as metodologias ASG e a comunicação entre investidas e investidores.

Metodologias específicas definem critérios e parâmetros ASG que serão utilizados na análise de companhias e na definição da estratégia de investimentos. Essas metodologias podem ser estabelecidas pelo próprio gestor/investidor ou podem ser conduzidas por terceiros, que fornecem serviços por meio de especialistas e bases de dados qualitativos e quantitativos. E é justamente a falta de padronização dessas metodologias que trazem questionamentos sobre a qualidade dos resultados obtidos nas análises.

Nesse universo, alguns stakeholders – agências de rating ASG, provedores de dados, certificadoras, analistas, associações e reguladores; e as próprias empresas, sejam listadas ou não listadas – discutem as formas mais adequadas de se definir critérios de padronização e de referências globais e locais para as análises ASG. E, embora não exista uma regra universal, países têm debatido a criação de taxonomias e regulações, com a Europa liderando essas discussões.

No Brasil, associações como Anbima e Abrapp têm publicado estudos e guias para orientação tanto de gestores quanto de EFPC (Entidades Fechadas de Previdência Complementar), tais como: Guia Prático para Integração ASG na Avaliação de Gestores, Guia para Elaboração de Relatório Anual de Sustentabilidade, Novo Código de Autorregulação em Governança de Investimentos, entre outros.

Outro ponto relevante é a comunicação clara entre investidas e investidores, principalmente nos aspectos que são mais importantes do ponto de vista ASG. Quando o investidor compreende quais são as suas principais demandas ASG e as comunica claramente às suas companhias investidas, estabelece-se um processo de diálogo e engajamento que é essencial para a evolução do desempenho em sustentabilidade para ambas as partes.

E entende-se que a melhoria no desempenho de companhias nos temas ASG afeta positivamente os investidores, especialmente as EFPC. Todo o debate sobre a aplicação de critérios ASG na análise de investimentos tem como base um conceito que está diretamente relacionado aos objetivos das EFPC: buscar pela perenidade e rentabilidade no longo prazo, minimizando impactos adversos nos negócios e mapeando riscos que possam afetar o futuro dos investimentos. Quando nos debruçamos sobre critérios que vão além dos financeiros, ou seja, os critérios ASG, procuramos identificar os riscos associados a esses parâmetros. Exemplos de riscos ASG que não podem ser menosprezados não faltam: riscos físicos relacionados às questões climáticas, os impactos sociais e econômicos da pandemia, eventos societários vinculados às questões de governança. Apenas para citar os riscos mais emergentes na conjuntura atual. Outros temas importantes são avaliados continuamente por especialistas, o World Economic Forum publica anualmente o relatório de riscos globais (The Global Risks Report ), e os riscos associados a questões ambientais e sociais figuram entre os principais riscos, tanto em probabilidade de ocorrência quanto em gravidade do impacto causado.

A responsabilidade e o dever fiduciário passam também pela identificação dos principais riscos ASG e pela inclusão nas avaliações das empresas e nos processos de investimentos. É preciso levar em conta que esse é um processo em evolução, mas que certamente não terá caminho inverso. Cada vez mais o tema ASG estará na pauta de discussões.

E as discussões sobre esse tema não estarão focadas somente nos riscos associados. Há também oportunidades interessantes emergindo por conta desse debate. Setores que se movem para uma economia mais sustentável, tais como de energia renovável e de infraestrutura verde, tendem a ser valorizados. Companhias que possuem políticas de inclusão e diversidade destacam-se diante das demandas cada vez maiores da sociedade.

O alinhamento com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que são 17 objetivos propostos pelas Nações Unidas e traduzidos na Agenda 2030 no Brasil, também podem trazer boas oportunidades de investimentos e retornos no longo prazo.

Entretanto, é preciso traduzir as boas intenções e teorias sobre os benefícios de se incorporar temas ASG às questões práticas. Na agenda do mercado de capitais e das EFPC, embora tenha-se observado um crescimento do interesse sobre o tema, bem como o aumento do patrimônio líquido e de fundos ASG, como mencionado anteriormente, ainda há um longo caminho a percorrer. Nesse aspecto, alguns pontos são importantes:

  • É necessário ter uma agenda de regulação e autorregulação ASG alinhada e bem direcionada, que busque a evolução desse mercado e critérios cada vez mais rigorosos.
  • Deve-se ter um comprometimento firme e sério por parte das companhias e investidores, evitando ações vazias que se traduzam no “greenwashing”, ou seja, na proposta superficial de incorporação dos critérios ASG sem realmente se comprometer com a evolução do seu desempenho.
  • Deve-se ter muita transparência e clareza nos processos, com o objetivo de informar adequadamente o mercado (investidores, participantes, assistidos) sobre quais questões ASG estão sendo consideradas e quais são os critérios para tomada de decisão de investimentos.

A incorporação ASG é uma realidade que vem sendo desenhada há tempos e que se concretizou mais recentemente. Não há como escapar das atuais demandas da sociedade e das novas gerações, mais conectadas e preocupadas com o futuro do planeta. Para isso, nada melhor do que compreender esse novo cenário, se preparar e se adequar o quanto antes ao universo dos investimentos sustentáveis.

*Analista ASG da Santander Asset Management.

Entrevista: Não basta aumentar o número de ativos, mas acessar fatores de riscos distintos

Entrevista: Não basta aumentar o número de ativos, mas acessar fatores de riscos distintos

Com o desafio de superar as metas atuariais em cenário de juros reduzidos, cabe aos gestores das entidades fechadas (EFPC) buscaram alocações mais arriscadas e diversificadas. A simples diversificação, porém, não resolve o problema. É preciso acessar fatores de riscos distintos, diz Renato Santaniello, Head de Soluções de Investimentos e Multimercados da Santander Asset Management.

Mestre em Economia pela UFRGS e graduado em Economia pelo Insper, Santaniello indica a importância de buscar a diversificação com ativos internacionais. “Quanto menor a relação aos fatores de risco locais, maior será o efeito da diversificação do portfólio”, recomenda. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Blog Abrapp em Foco – Poderia comentar o atual cenário de juros reduzidos da economia e o desafio da superação das metas atuariais das EFPC?

O cenário local já apresentava diversos desafios e o banco central estava adotando uma política monetária expansionista para estimular a atividade. Com o impacto da crise, o crescimento foi muito impactado e deve demorar alguns anos para retomar o patamar anterior a pandemia. Nesse cenário, os juros devem continuar em patamar baixo por muito tempo e os títulos públicos ficarão com retornos inferior à meta atuarial. O desafio para a gestão de fundos de previdência será ainda mais complexo e as fundações precisam de alternativas de investimento com maior potencial de retorno, porém com mais risco.

Blog Abrapp – Poderia analisar a importância e a necessidade de maior diversificação das carteiras de investimentos das entidades diante do atual cenário macroeconômico? Poderia comentar a vantagem de acessar mercados que não estão sujeitos ao risco local?

Com a necessidade de assumir mais risco, torna-se ainda mais importante a diversificação dos investimentos para balancear o risco e evitar prejuízos elevados em momentos adversos. Para diversificar a carteira, não basta aumentar o número de ativos, mas acessar fatores de riscos distintos. Quanto menor a relação aos fatores de risco locais, maior será o efeito da diversificação do portfólio.

Blog Abrapp – Poderia comparar o tamanho do mercado brasileiro com outros mercados como EUA e Europa e o acesso às oportunidades nestes países?

O PIB brasileiro representa cerca de 3% do PIB mundial, o mercado de renda fixa representa 2% do mercado global e renda variável 1% do mercado global. Além da baixa representatividade, o mercado local é mais concentrado do ponto de vista setorial e, por consequência, apresenta efeito de diversificação inferior comparado a uma posição no mercado global.

Blog Abrapp – Como os investimentos no exterior podem compor a política de investimentos dos fundos de pensão no sentido de se alcançar maior diversificação das alocações com menor risco?

Para conseguir diversificar ao máximo a carteira, seria importante ter a possibilidade de alocar parte relevante do portfolio no exterior, portanto, o primeiro ponto é permitir a maior alocação possível no mercado offshore. Além disso, seria importante acessar diversos mercados, tanto em renda fixa como em renda variável.

Blog Abrapp – Poderia comentar a correlação ou descorrelação dos investimentos no exterior e dos investimentos domésticos?

Não existe uma regra definida e nem um nível estático de correlação dos ativos, mas os ativos internacionais apresentam correlação mais baixa aos ativos locais por apresentar fatores de risco distintos, mesmo que por alguns momentos possam ficar parecidos. No longo prazo, a correlação média será baixa, fazendo com que o portfolio apresente um balanceamento melhor entre retorno e risco com a inclusão de ativos offshore.

Blog Abrapp – Quais as principais opções de investimentos no exterior acessíveis aos fundos de pensão? Renda variável, renda fixa, BDRs, outros.

Atualmente a maior oferta de produtos está em estratégias de renda variável, mas está crescendo bastante a oferta de fundos de renda fixa e multimercados.

Blog Abrapp – O que acha da proposta de aumentar o limite de alocação da Resolução 4.661 dos investimentos no exterior para até 20% do total do patrimônio dos fundos de pensão.

Na necessidade de maior diversificação dos investimento, seria fundamental permitir uma alocação maior no exterior.

Blog Abrapp – Qual a melhor opção, o investimentos no exterior com hedge ou sem hedge cambial? Por que?

Não existe uma resposta certa ou errada, pois os investimentos sem hedge podem apresentar maior volatilidade e essa alocação depende bastante do perfil de risco e política de investimento da fundação. No entanto, a característica da moeda de desvalorizar em momentos de crise, ajuda bastante no balanceamento de risco quando os ativos apresentam retornos extremos negativos em períodos de maior stress. Com isso, quando o investimento é sem hedge cambial, o efeito da diversificação é ainda maior e os impactos em momentos adversos são menores.

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