Artigo: O caso Americanas e a importância do acesso à informação* – Por Sara Marques

O ano começou realmente de forma “surpreendente”. Se já não bastassem as incertezas políticas e econômicas internas e externas, as surpresas também vieram do mundo corporativo e os respectivos impactos no mercado financeiro.

Logo na segunda semana do ano, a então recém-empossada diretoria da Lojas Americanas renuncia ao cargo e anuncia “inconsistências em lançamentos contábeis” no valor de R$ 20 bilhões, um montante que se assemelha ao valor de mercado da Magazine Luiza e supera empresas como Natura, Braskem, BRF e tantas outras negociadas na bolsa brasileira. A notícia, que em poucos minutos dominou os meios de comunicação, trouxe, mais uma vez, antigos alertas. Considerando a amplitude do montante envolvido, não é de se assustar a dimensão do estrago. E estes impactos não se devem apenas ao fato de as ações da companhia despencarem cerca de 80% em um único dia. As perdas chegaram a milhares de brasileiros que, com perfis conservadores, investiam os seus recursos em fundos de renda fixa ou fundos de pensão e previdência. Estes, por sua vez, aplicavam parte da carteira em debêntures das Lojas Americanas, papéis considerados, até então, de baixíssimo risco. E é exatamente neste ponto que chegamos onde queremos e precisamos relembrar o debate.

Assim como em tantas outras crises, o caso Americanas deixa claro que, mesmo com todos os controles de risco – que devemos ter e monitorar para uma gestão saudável da nossa carteira -, há situações que fogem de todo e qualquer modelo previamente pensado ou definido. Uma empresa auditada por uma ”big four” de auditoria e consultoria, com os balanços e relatórios publicados, não despertaria – ou não deveria despertar – dúvidas da “consistência” das suas informações contábeis. Assim, se não podemos prever, o que devemos fazer?

Na minha avaliação, além da questão das ferramentas de gestão de risco já mencionadas anteriormente, há três pontos principais que devemos avaliar com relação à carteira de investimentos. O primeiro, e mais relevante, é o acesso à informação. Em uma situação de crise, os gestores e dirigentes precisam ter acesso às informações de seus fundos rapidamente. É preciso saber imediatamente qual o tamanho da exposição a papéis da empresa envolvida. Somente com esta informação, é possível dimensionar os impactos. O quão rápido for este acesso, mais rápida será a tomada de decisão. Ou seja, diante de uma crise, esta diligência poderá ser o fator predominante para reduzir o impacto negativo aos cotistas e rever a estratégia, se necessário.

O segundo ponto, que também é amplamente debatido e que deve ser colocado em prática exatamente para a diluição do risco, é a diversificação. Mesmo os fundos conservadores, que direcionam parte do seu patrimônio líquido para títulos de crédito privado, precisam diversificar os ativos. Neste cenário, mesmo que a crise afete a carteira, terá menor impacto.

Por fim, o terceiro ponto, e não menos importante, é o acompanhamento dos preços dos ativos a mercado. Acompanhar a marcação a mercado dos ativos de crédito que fazem parte da carteira é um tema tão relevante que chegou aos investidores pessoas físicas no início deste ano. Para os gestores de fundos e entidades de previdência complementar, acompanhar o comportamento dos preços dos ativos é fundamental para tentar identificar movimentos abruptos e inesperados.

Se há algo que podemos prever, é que crises sempre irão acontecer. Só não sabemos quando, como ou com qual intensidade ela chegará. Por isso, precisamos estar preparados para tomar decisões e gerenciá-las, quando e como surgirem.

*Diretora da área de Consultoria da LUZ Soluções Financeiras

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