De acordo com o último Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o salário das mulheres é 20,7% menor que o dos homens. Esse é apenas um dado demonstrando que a igualdade e equidade entre homens e mulheres ainda é distante, reforçando que a independência financeira contribui para diminuir a vulnerabilidade feminina, fortalecendo a segurança, a autoestima e ampliando oportunidades para um futuro mais justo e sustentável.
O tema foi discutido em webinar realizado pelo Fórum de Equidade e Diversidade das EFPC nesta quinta-feira, 13 de março. Para fortalecer a participação feminina no mercado financeiro e previdenciário, a Abrapp tem realizado iniciativas em prol da igualdade e equidade de gênero, apoiando causas que buscam o empoderamento da mulher. A associação também apoia o Fórum de Equidade e Diversidade das EFPC por meio do Comitê de Sustentabilidade.
Recentemente, a Abrapp, em parceria com o Ministério da Previdência, lançou uma pesquisa sobre a participação feminina nas EFPC, com o objetivo de mapear a dinâmica de inclusão e engajamento das mulheres nas entidades e nos planos de benefícios. Os resultados desta pesquisa buscam contribuir para o planejamento de políticas públicas para o setor.
A associação apoia ainda os Princípios Internacionais de Empoderamento das Mulheres, uma iniciativa da ONU Mulheres e do Pacto Global das Nações Unidas, além de ter aderido ao Manifesto das Empresas em Defesa da Diversidade e Inclusão e ao Manifesto pela Diversidade e Igualdade Racial.
“A Abrapp busca apoiar essas iniciativas para que cada vez mais mulheres sejam fortalecidas e para que enfrentemos menos problemas relacionados à desigualdade e à violência”, disse Regidia Alvina Frantz, Diretora Vice-Presidente Titular da Regional Sul da Abrapp, na abertura do evento. “As mulheres têm conseguido ampliar seu espaço no mercado de trabalho, mas ainda enfrentam um grande desafio quando se trata da participação feminina em cargos de liderança, que ainda precisa evoluir”, reiterou.
Regidia também destacou a importância da previdência complementar para a independência financeira das mulheres. “Apesar de ser um benefício usufruído no futuro, ele será fundamental em momentos de vulnerabilidade, como na velhice, quando podem surgir problemas de saúde. Nesse contexto, a previdência complementar se torna um grande apoio”.
Para ela, o ideal seria que a educação financeira fosse introduzida nas escolas para naturalmente se tornar parte das discussões familiares. “É um processo lento, mas vejo essa possibilidade. Quando analisamos a população brasileira, percebemos que não há uma cultura consolidada de poupança. Nossa tendência é voltada para o consumo”, pontuou.
Educação financeira e previdenciária – Raquel Castelpoggi, Coordenadora do Comitê de Sustentabilidade da Abrapp, reforçou que, mesmo escolarizadas, as mulheres ainda ganham menos que os homens, sendo as maiores desigualdades registradas nas profissões intelectuais e científicas. “Temos uma força feminina que pode contribuir muito para o país, e isso precisa ser aproveitado”.
Por isso, se tornam cada vez mais importantes as iniciativas do mercado financeiro para a promoção da educação neste setor. Nathalie Vidual, Superintendente da CVM, abordou o papel do mercado de capitais nesse sentido. “Um dos nossos principais mandatos é estimular a formação de poupança por meio da aplicação em valores mobiliários”.
Para ela, trabalhar a educação financeira de maneira ampla é essencial para desenvolver o mercado de capitais, atrair mais pessoas para esse ambiente e, assim, impulsionar o crescimento econômico. Além disso, ao analisar questões de gênero e raça, os desafios se tornam ainda maiores.
“Não podemos simplesmente começar falando sobre investimentos para esses grupos. Antes disso, é necessário abordar o planejamento financeiro pessoal”, disse. “É essencial que essas pessoas aprendam a organizar suas finanças para que, ao final do mês, consigam poupar um valor que possibilite futuros investimentos”.
Marcelo Billi Bernardo, Head de Sustentabilidade da Anbima, complementou dizendo que a pesquisa Raio X do Investidor, que analisa os hábitos de poupança e investimento dos brasileiros, enfatizou as diferenças de gênero, destacando que as mulheres investem menos que os homens, principalmente devido a fatores socioeconômicos e de renda.
“Geralmente, as mulheres são chefes de casa, arcam com mais custos, têm mais responsabilidades e assumem mais gastos quando são chefes de família”, disse, reforçando que a educação financeira e a conscientização financeira têm um papel importante para saber lidar com o dinheiro. “Quando as mulheres se educam financeiramente, elas acabam educando a família toda. Elas têm um papel muito importante na transmissão de educação financeira”, reiterou Billi.
Avanços e desafios – Apesar dos desafios, houve avanços, ainda que insuficientes, para a equidade de gênero no mercado financeiro evolua. Billi observou que, nos últimos 10 anos, houve um progresso significativo, com mais empresas reconhecendo a diversidade e inclusão como parte de sua estratégia de negócios. No entanto, poucas empresas têm programas estruturados com metas e monitoramento.
Por isso, ele enfatizou a necessidade de dados para entender a diversidade dentro das empresas e como isso é crucial para a gestão de programas de diversidade.”Se você não consegue entender como é a diversidade da sua equipe hoje, você não consegue fazer nada. Não vai ter um programa de diversidade e não vai saber o resultado.”
Jandaraci Araujo, Conselheira, executiva, TopVoice do Linkedin, referência nacional em ESG, diversidade e inclusão, também reforçou essa ideia, destacando a necessidade de contextualização e recortes específicos para entender as desigualdades enfrentadas por mulheres, especialmente as negras, no Brasil.
Ela pontuou a importância de combater discursos meramente numéricos e de ampliar a voz das mulheres para que possam ter acesso a recursos financeiros e, consequentemente, sair de situações de vulnerabilidade.
Assim, ressaltou a importância de promover mais mulheres em posições de liderança, como em conselhos deliberativos e fiscais. “Esse olhar da mulher nesses lugares é muito complementar para implementar políticas e fazer parcerias para que a gente possa ter uma sociedade mais justa, mais efetiva”, disse.
A educação e a formação surgem novamente como ferramenta essencial para capacitar mulheres a contribuírem de forma efetiva em posições de alto escalão. “Mulheres em cargos de alta gestão nas empresas significa lucratividade e inovação”.
Além disso, Jandaraci mencionou a necessidade de projetos de lei e iniciativas que promovam a participação de mulheres em conselhos de empresas estatais e de economia mista, como o PL n° 1246, de 2021, que estabelece a obrigatoriedade de reserva mínima de participação de mulheres em conselhos de administração.
Ela destacou o papel crucial dos atores de influência e das políticas públicas para acelerar a transformação social. “A gente pode ser um grande acelerador e catalisador dessa transformação para que ela seja um pouco mais rápida”, complementou.