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Gestores buscam aspectos ASG ativamente em análises de investimentos

Gestores buscam aspectos ASG ativamente em análises de investimentos

Os investimentos em aspectos ambientais, sociais e de governança (ASG, ou ESG, na sigla em inglês) deixaram de ser uma escolha ou tendência e passaram a ser primordiais para garantir retornos de longo prazo. Esse foi o tema de painel do segundo dia do 9º Seminário Gestão de Investimentos, iniciado ontem e que continuou ao longo desta sexta-feira, 16 de outubro. Com um público de mais de 700 pessoas acompanhando o evento online e ao vivo, os primeiros painéis do dia trouxeram temas relacionados a investimentos no exterior e oportunidades no crédito privado.

Para tratar dos aspectos ASG, Rafael Soares Ribeiro de Castro, Gerente Executivo de Conformidade e Controles Internos da Previ, moderou um painel que mostrou que gestores estão cada vez mais especializados e ativos na busca por investimentos com impactos ambientais, sociais e de governança em suas carteiras. “Temos acompanhando cada vez mais esse tema na mídia, e isso se reflete na análise dos nossos investimentos. Esse tema cresceu bastante nos últimos anos no Brasil, e para engrandecer o debate, traremos uma perspectiva internacional e nacional”. ​

Rick Stathers, Analista & Estrategista de ESG e Climate Change na Aviva investors, atua com uma equipe de mais de 20 especialistas em ESG e traçou um panorama da situação de mudança climática no mundo atualmente, reforçando o Acordo de Paris, um tratado que rege medidas de redução de emissão de gases estufa a partir de 2020, a fim de conter o aquecimento global preferencialmente em 1,5 ºC. “Precisamos tomar as medidas necessárias para isso, pois as consequências para um aumento do aquecimento global serão graves”, disse. “Até o final da próximas década, temos que diminuir as nossas emissões de gás carbônico. Há uma falha de mercado em segurar o aumento de emissões, sobretudo em empresas de petróleo e gás”.

Ele citou motivos que fazem esse tema ser importante aos investidores. “Já estamos tendo um aumento a temperatura, no nível dos oceanos, enchentes e queimadas afetando as economias ao redor do mundo. É importante saber quais são as implicações disso para tomar as decisões de investimento de longo prazo”. Segundo Rick, gestoras e investidores ao redor do mundo já estão pressionando empresas para cobrar atuações nesse sentido. “A resposta precisa ser maciça e aumentar significativamente”, disse. “Há uma mudança na demanda dos clientes, com análises, campanhas de desinvestimentos de empresas responsáveis pelo aquecimento e, recentemente, na Europa houve mudanças nas regulações, com requisitos maiores que se alinhem à exigências do Acordo de Paris”, destacou.

Aspectos ambientais – Nos últimos 4 anos, a Aviva tem feito uma análise sobre as implicações desse cenário de aquecimento, medindo seus impactos. “É muito mais plausível que haja um impacto negativo com qualquer que seja o aumento de temperatura, mas o cenário de 1,5º é o menos negativo. Através dos nossos investimentos, podemos a chegar nesse resultado. Há muitas discussões internamente que devem ser replicadas entre empresas e gestoras para afinarem suas carteiras e fazem com que isso nos leve a esse futuro de aumento de 1,5º”, disse o analista.

Entre as medidas que as gestoras podem tomar, segundo Rick, está incluir o risco no processo de investimentos, identificando empresas com o modelo de negócios voltado para um mundo de baixo carbono, medindo como as empresas fazem a gestão de risco climático. Além disso, ele citou uma abordagem mais ativa, de contato com acionistas das empresas, podendo ser mais ativo nas decisões. “Temos uma abordagem forte de engajamento e oferecemos soluções aos investidores”.

Gestão – Para tomar essas decisões mais práticas, através de um processo de capacitação dos analistas, a Indie Capital conta com a Sitawi para construir políticas responsáveis para os investidores até chegar no próximo passo, que será abrir um fundo 100% ASG. “Temos um problema sério de sustentabilidade no mundo, e o mercado está caminhando para essa direção. Faz parte do desafio das gestores incorporar esses investimentos no seu dia a dia”, disse ​Daniel Reichstul, Fundador da Indie Capital. “Isso vai fazer preço, e a nossa motivação, nosso propósito está calcado na ideia de estar na ponta. Temos uma questão fiduciária, e para dar bons retorno é importante saber analisar aspectos ASG na hora de investir em uma empresa”.

Ele deu ainda uma visão para identificar os principais pontos programáticos, a subjetividade, olhando não somente os indicadores, mas entendendo a atitude da empresa e sua visão holística. “Já olhávamos com profundidade o aspecto de governança, e agora olhamos o score social e ambiental também”, destacou. “A gente tem tido bastante humildade intelectualmente para ir incorporando os temas no nosso dia a dia, melhorando de maneira gradual e cuidadosa para ter bastante certeza de que estamos fazendo algo sólido e novo, com cuidado na incorporação”, disse.

Daniel apresentou ainda algumas variáveis identificadas no processo de análise que pesam para determinados setores, cruzando o score com a atitude da empresa. “As empresas que têm um índice ASG alto são as que a gente quer investir, desde que elas tenham um retorno esperado alto. Em empresas que possuem nota baixa de ASG, mas tem uma atitude boa no sentido de mudanças, precisamos olhar com cuidado, pois é aqui que o engajamento vai fazer diferença e pode ser um turn-around. Se houve atitudes positivas dos executivos, apesar da nota baixa, mas com direção boa, e conseguirmos captar isso, essa empresa deve ter um bom retorno. A questão será, então, acompanhar e ver se a mudança, de fato, ocorre”.

Já no caso de empresas que têm boa nota, mas atitude não boa, Daniel avalia que devem ser evitadas. “Temos uma abordagem mais pragmática. Não necessariamente deixamos de investir, mas colocamos um peso pequeno”, explicou. “Buscamos retorno satisfatório para os nossos clientes, essa é a nossa abordagem”, ressaltou.

Sustentabilidade dentro de casa –​Marcelo Mello, Vice-Presidente de Investimentos, Vida e Previdência da Sulamérica, destacou que esse tema ganhou muita força nos últimos meses, o que serve de alerta para que ninguém deixe-o seguir em uma direção superficial. “Começamos a ver muita demanda por produtos ASG, fundos que tenham essa temática, e o investidor deve cada vez mais se preocupar com esse processo. Muito mais importante que um produto específico que vai impactar determinada demanda, mas como impactamos toda a indústria de fundos em um processo que leva em consideração esses aspectos, sendo isso parte da responsabilidade fiduciária dos gestores de recursos”, disse.

Ele destacou que o início da análise de processos de governança das empresas foi mais fácil dentro da Sulamérica, mas os aspectos sociais e, principalmente, ambientais, para o gestor de portfólio nunca eram a prioridade, por não conseguir gerar valor. “Na época, passamos a quase que forçar a análise desses aspectos, estimulando o gestor de portfólio a considerá-los nas suas análises”. Depois de um tempo, Marcelo Mello destacou que os aspectos sociais começaram a ficar mais palpáveis em termos de impacto dentro das companhias. “Começamos a perceber que isso tinha muito valor. Assim, a obrigação da avaliação diminuiu, e o tempo que o analista se dedicava a essas questões aumentou”.

Já o aspecto do meio-ambiente está vindo agora de maneira mais acelerada, principalmente após a pandemia de COVID-19, destacou Marcelo Mello. “A pandemia é um marco secular, e provavelmente no futuro, os portfolio managers avaliarão como as empresas se comportaram nesse período, quais atitudes foram tomadas. Será uma referência importante”, avaliou, ressaltando que, ainda assim, é preciso avançar nas questões de meio-ambiente. “O liability da empresa que não está em compliance com meio-ambiente é gigantesco. Essa questão não evoluiu ainda no Brasil e requer mais conhecimento e processos”, complementou.

Mello ressaltou a importância de que os próprios gestores incorporem ações sustentáveis dentro de casa. “Nós, como gestores, temos que ter cuidado não só de levar o produto correto e sustentável, com alfa, aos investidores, mas também temos a obrigação de, assim como da porta pra fora mostramos essa preocupação, da porta pra dentro temos que mostrar como isso impacta em nosso patrimônio. Não tem melhor ou pior, tem engajamento”.

Metodologias – Apresentando os métodos utilizados na construção de carteiras na hora de se montar um portfólio considerando aspectos ASG, ​Iain Snedden, Especialista em Investimentos da Aegon Asset Management, parceira da Mongeral e MAG Investimentos, ressaltou quatro grandes critérios: as exclusões, selecionando empresas que não se adequam aos aspectos e excluí-las do portfólio; os melhores do mercado, selecionando as empresas que tenham um rating bom de ASG; empresas com o tema de sustentabilidade, que podem gerar impacto robusto, como energia limpa, causas sociais, etc.; e investimentos de impacto, que podem ter retornos melhores se tiverem impacto tangível nas causas que os investidores querem apoiar.

Iain ressaltou como os investimentos sustentáveis podem gerar alfa às carteiras. “Os fatores ASG melhoram desempenho das empresas tanto em mercado desenvolvidos como em emergentes, incluindo bom desempenho em fatores ambientais e sociais, pois havia uma ideia de que esses fatores não tinham tanto peso quanto o da governança, o que não é verdade”. Segundo ele, apesar de haver poucas soluções perfeitas disponíveis, os investimentos nesses aspectos fazem diferença nos retornos. “Se você é uma empresa e está melhorando esses fatores, faz sentido que isso se traduza em melhorar eficiência, métricas financeiras, e a maneira que a empresa atua, o que reflete em uma valorização superior no mercado acionário”.

O especialista explicou ainda como a Aegon trata essas análises, com um modelo de três dimensões: produto, práticas e melhoria. É a combinação dessas três coisas que nos leva a avaliar uma empresa”. Nesse aspecto, há exclusão de alguns setores dentro dos investimentos, combinando também as práticas, ou seja, comportamento das empresas em relação aos seus funcionários e acionistas, e processo de melhorias. “Assim, classificamos empresas como líderes, melhoradores ou as que estão ficando para trás”. Ele ressaltou que ASG é subjetivo, mas há indícios de que incorporar esses fatores acrescenta valor. “É importante saber o que vai ao encontro da necessidade de cada cliente. No fim, tudo tem a ver com trabalho e encontrar as melhores ideias por meio de uma pesquisas própria, e incorporá-las”.

Tanto Iain quanto Rick, com uma visão internacional, destacaram que a busca por aspectos ASG nas empresas não deve ser específica em um país, e sim cada empresa deve ser avaliada dentro dos desempenhos ASG em todo o mundo, olhando casos individuais. Complementando o tema, Marcelo Mello ressaltou que é importante verificar se as empresas estão sendo autocríticas com suas ações relativas a esses princípios. Já Daniel Reichstul destacou que quanto mais informação a empresa fornecer, mais rico ficará esse debate.

EFPC – Apesar das exigências locais, Rafael de Castro questionou como é possível engajar ainda mais as EFPC nesses processo, e Marcelo Mello ressaltou que os investidores estão cada vez mais engajados, e esse tema já ganhou força. “Esses investidores estão mais atentos ao tema. Estamos tentando construir isso de forma acelerada nas fundações menores, sendo que nas maiores esse processo já é mais consolidado”, disse.

Sob a perspectiva europeia, Iain destacou interesse nos aspectos ASG por parte dos fundos de pensão. “Alguns dos pedidos de informação que eles fazem são quase que exclusivamente ligados a fatores ASG, solicitando para que a gente incorpore esses fatores aos nossos processos de investimento. Estados Unidos também cerca esse tema em termos de demanda”.

A Comissão Técnica de sustentabilidade da Abrapp possui um guia que auxilia as EFPC no processo de seleção de gestores. “Esse é um tema muito palpitante, e no futuro os investimentos responsáveis estarão inseridos nas outras discussões de investimento como uma coisa só. Os fundos de pensão devem inserir esse debate em seus processos em relação a riscos e oportunidades, e cada vez mais veremos evolução desse tema no nosso setor”, complementou Rafael de Castro.

Acompanhe mais notícias do evento no blog Abrapp em Foco.

O 9º Seminário Gestão de Investimentos nas EFPC é uma realização da Abrapp com apoio institucional de Sindapp, ICSS, UniAbrapp e Conecta. O evento conta com patrocínio Black da XP Investimentos; Ouro da Aditus, Aviva Investors, BNP Paribas Asset Management, Indosuez Wealth Management, Captalys, ClearBridge Investments, Hancock Asset Management Brasil, Indie Capital, J.P. Morgan Asset Management, Kadima Asset Management, MAG Investimentos, Perfin Asset Management, Schroders, Sparta Fundos de Investimento, Sulamérica Investimentos, TAG Investimentos, Vinci Partners; Bronze da Franklin Templeton, i9Advisory Consultoria Financeira, Mauá Capital, StepStone; e apoio da ARX.

Evento Internacional: Fórum BlackRock America Virtual contará pontos para PEC do ICSS

Evento Internacional: Fórum BlackRock America Virtual contará pontos para PEC do ICSS

A BlackRock realizará nos próximos dias 20 e 21 de outubro o evento “More: Big Questions, More Answers” através de plataforma online. A inscrição é gratuita e contará 6 pontos para o Programa de Educação Continuada do ICSS.

O evento faz parte do Fórum BlackRock America Virtual e contará com apresentações do Fundador e CEO da gestora Larry Fink que falará sobre o tema “Today’s Changing World” (As Mudanças Atuais no Mundo) ao lado de Dominik Rohe, Head para América Latina.

Outros gestores e executivo da BlackRock abordarão os seguintes temas: “Eleições nos EUA e América Latina”; “ESG e o Futuro do Investimento”, “Navegando com Propósito”; e “Mudanças no Cenário Atual de Investimentos”. O evento terá tradução (audio streams) em inglês, espanhol e português.

Clique aqui para inscrições e programação completa.

Artigo: ESG a serviço do dever fiduciário dos investidores institucionais – *Por Carolina da Costa

Artigo: ESG a serviço do dever fiduciário dos investidores institucionais – *Por Carolina da Costa

O termo ESG, Environment, Social, and Governance, resultou da publicação do relatório Who Cares Wins, Connecting Financial Markets to a Changing World, uma iniciativa conjunta desenvolvida pelo Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), juntamente com diversas instituições financeiras nos anos 2000. Já no início de 2005, as Nações Unidas juntamente com um grupo dos maiores investidores institucionais do mundo se juntaram para desenvolver algumas premissas para balizar as atividades financeiras em prol de um desenvolvimento corporativo sustentável. Como resultado, foram desenvolvidos os Princípios para o Investimento Responsável (PRI). Os Princípios foram lançados em abril de 2006 na Bolsa de Valores de Nova York, e desde então, o número de signatários cresceu de 100 para mais de 3.000 que representam mais de US$ 100 trilhões de ativos. Isso demonstra o poder que investidores, juntamente com consumidores, têm de influenciar grandes empresas a aprimorar o modus operandi dos negócios.

ESG não deve ser entendido como produtos, processos ou conjunto de métricas/informações que municiam compliance. Tais atributos são insumos ou meios. ESG é um modelo mental sistêmico que inclui no planejamento da inovação, na gestão e no monitoramento dos negócios, aspectos materiais que afetam o equity e criação de valor dos negócios ao longo do tempo.

Por anos, ESG foi interesse secundário da maioria dos investidores. Contudo, o crescimento expressivo de recursos sob gestão da parte dos fundos de pensão e investidores institucionais no mundo faz com que seja impossível diversificar riscos sistêmicos sem considerar impactos sociais e ambientais nos portfolios de investimentos. Não se trata de conteúdo radicalmente novo ou dissociado dos parâmetros de análise e inovação nos negócios. Significa uma evolução do modelo mental de análise a serviço da melhor precificação de ativos e calibragem de riscos. Vale frisar que somente na America Latina, de acordo com 90 grandes empresas associadas ao Carbon Disclosure Project (CDP), o risco climático reportado em 2019-2020 foi da ordem de US$ 261 bi.

Segundo a Morningstar, até o primeiro semestre de 2020, os ingressos líquidos em fundos ESG alcançaram U$ 21 bilhões, e no Brasil, os fundos registrados como Ações Sustentabilidade e/ou Governança cresceu 26% entre julho de 2019 e julho de 2020.  Ainda, segundo dados do Global Sustainable Investment Alliance, o total de investimento responsável no mundo está em torno de US$ 31 trilhões e o investimento de impacto corresponde a cerca de US$ 500 bilhões sob gestão, em 2018, sendo que 1.300 organizações financeiras se envolveram com esses tipos de ativos.

Para além da razão ética (que deveria ser o principal ponto de partida a ensejar o modelo mental ESG), ESG também gera retorno financeiro. Isso se dá, especificamente, quando análise financeira se baseia em itens ESG que impactam materialmente determinado setor. Uma referência para itens de materialidade ESG é o SASB – Sustainability Accounting Standards Board – que elenca itens ESG relevantes para cada uma das 77 industrias do seu sistema de classificação. Um estudo de Mozaffar, Serafeim e colegas (Harvard Business School) mostrou que bom desempenho da empresa em itens relevantes do ponto de vista de materialidade ESG em um determinado setor (ex. na indústria de varejo de alimentos: emissão de gases de efeito estufa, uso eficiente de energia, práticas justas de trabalho e maketing/propaganda responsáveis) refletiam em melhor resultado financeiro ao longo do tempo. Já bom desempenho em itens ESG não-materiais para determinada indústria não afetava o resultado da empresa.

Outro estudo da Harvard Business School, conduzido por Serafeim e colegas, demonstrou que empresas que desenvolveram processos organizacionais para medir, gerenciar e divulgar sua atuação em fatores ESG no início dos anos 90 tiveram um desempenho superior, comparado ao grupo de controle setorial, em 18 anos seguidos. Outro estudo de 2017 da Nordea Equity Research reportou que de 2012 a 2015 empresas com maiores ratings ESG superaram as de menores ratings em 40%! O índice global de ações MSCI ESG Sustainable Impact Metrics – que acompanha mais de 8 mil empresas envolvidas nos temas de impacto socioambiental – apresentou um retorno de quase 25% em 2019, valor semelhante ao índice geral de ações, MSCI ACWI, que teve em torno de 27% de ganhos. Portanto, a chave para a nova geração de investimento com orientação ESG é o foco na materialidade do ESG.

Em termos de dever fiduciário, da mesma forma que é míope assumir que investimentos com orientação ESG significam sacrificar ganhos, também é míope assumir que dever fiduciário é apenas garantir retorno financeiro no curto prazo. Investidores institucionais e fundos de pensão possuem mandatos intergeracionais. Não podem ignorar fatores ESG que afetam ganhos no longo prazo. Canada, Reino Unido, Suécia já possuem regulações que exigem que seus fundos de pensão sejam exemplares em termos de investimento sustentável.

Um bom exemplo da força de investidores institucionais na agenda ESG é o recente relatório de 2020 do CPP (Canadian Pension Plan) responsável por gerir mais de U$ 400 bilhões de 20 milhões de canadenses. O relatório, dedicado à integração ESG, reforça a congruência entre a constante captura de materialidade ESG nos investimentos e a observância do dever fiduciário para entrega de resultados (nos últimos 10 anos, o fundo gerou retorno líquido de 9.9% anualizados). Algumas formas como a influência da agenda ESG se materializa nas decisões de investimento são:

-exercendo poder de voto/veto (“proxy voting principles”) na indicação de membros dos conselhos de administração, na busca por maior diversidade;

-cobrando princípios de governança e alinhamento de incentivos (remunerações) que contribuam para uma cultura de alto desempenho;

– exigindo que empresas reportem informações materiais sobre targets ESG (e não apenas políticas) e riscos climáticos de seus negócios (ex. SASB e TCFD)

– investindo em negócios que apoiem a transição energética para uma economia de baixo consumo de carbono para maior estabilidade climática. Vale frisar que o relatório World Economic Forum (The future of the nature and business, 2020) projeta custos de US$ 2,7 trilhões/ano até 2030 para transição para nova economia de estabilidade climática, o que inclui a necessidade de novas tecnologias que são críticas para 80% das novas oportunidades de negócios.

No caso do Brasil, integração ESG aos investimentos pode representar grandes oportunidades. O relatório do World Resource Institute Brasil (2020) aponta ganhos de R$ 2,8 trilhões no PIB na próxima década com economia de baixo carbono orientada às cadeias de infraestrutura inteligente, inovação industrial e agricultura sustentável. Somente na agricultura, poderia haver um incremento de R$ 19 bilhões em receitas, a restauração de 120 mil km² de pastagens degradadas e a redução em 42% das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). A adoção de melhores práticas ESG poderá valorizar a marca Brasil no mundo e fortalecer a posição do país como potência agroclimática. São poucos os países que podem desempenhar um papel tão estratégico na produção de alimentos com reduzida emissão de carbono e ao mesmo tempo mitigar efeitos do aquecimento global.

Investidores institucionais e fundos de pensão podem e devem exercer forte influência no reporte de impactos sociais e ambientais das empresas e na integração ESG aos negócios. Seus horizontes de investimentos mais amplos permitem que acompanhem empresas ao longo de vários anos para entender quais abordagens são mais efetivas em integrar fatores materiais ESG às estratégias dos negócios. Isso é justamente zelar em mais alta conta pelo patrimônio intergeracional ao qual respondem fiduciariamente.

*PhD, sócia da Maua Capital

(As opiniões e conceitos emitidos no texto acima não refletem, necessariamente, o posicionamento do 
Grupo Abrapp a respeito do tema, sendo seu conteúdo de
 responsabilidade do autor)
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