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Entrevista: Oportunidades de investimentos em energia e saneamento

Entrevista: Oportunidades de investimentos em energia e saneamento

​A queda nas taxas de juros está incentivando cada vez mais a maior diversificação das carteiras das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC). Além da renda variável e multimercados, começa a entrar no radar dos investidores institucionais os ativos e fundos de infraestrutura. Em entrevista para o Blog Abrapp em Foco, a RI da Perfin Asset, Suzana Vescovi analisa as oportunidades de investimentos com ativos de energia (geração e transmissão) e saneamento.

A especialista explica as características e riscos de tais investimentos, abordando aspectos como os prazos, riscos e retornos. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Blog Abrapp em Foco – Poderia analisar o cenário atual de taxas de juros reduzidas e as perspectivas para os investimentos das EFPC?

Suzana Vescovi – Parece um movimento natural que as EFPC aumentem sua exposição em renda variável com as taxas de juros nos patamares atuais, porém esta tendência está se consolidando aos poucos. Ao observar os dados disponibilizados pelos relatórios estatísticos da Abrapp, entre 2015 e agosto de 2020 os percentuais de alocação em renda fixa variam entre 70,7% e 74,0% enquanto para renda variável, entre 18,5% e 18,5%. Este movimento já vinha acontecendo quando analisamos os números de 2018 e 2019, porém de forma tímida e reativa, uma vez que a Selic já estava se comprimindo desde 2016. Certamente a crise sanitária que estamos vivendo atrapalhou bastante essa dinâmica e, na nossa visão, empresas de qualidade com dinâmica própria e que sejam pouco influenciadas por fatores exógenos apresentam boas oportunidades com riscos controlados.

Blog Abrapp – Quais as perspectivas para a renda variável em 2021 e para os próximos anos?

Suzana Vescovi – Na nossa visão o cenário mais provável é a normalização dada a perspectiva de vacinas para o Covid-19 e, desta forma, estamos com exposições maiores em empresas que vão se beneficiar com a retomada da atividade e crescimento do PIB. Empresas ultra conservadoras foram reduzidas do nosso portfólio para aumentar empresas com teses de investimento de crescimento ligadas aos fatores endógenos da companhia. Os desafios que podemos encontrar e, que estamos monitorando, são deslizes deste cenário de normalização – um segundo lockdown ou ineficiência da vacina. No Brasil, estamos observando o andamento das reformas administrativa, tributária e outras específicas como, por exemplo, o marco do saneamento. Somado a isso, observamos várias oportunidades com as privatizações e concessões que devem ajudar na redução da alavancagem do estado, evitando a piora do risco sistêmico

Blog Abrapp – Poderia comentar as opções de investimentos no setor de infraestrutura? Mais especificamente no setor de energia?

Suzana Vescovi – Dentre os principais tipos de investimento no setor de infraestrutura, relacionado à energia, destacamos a transmissão e geração. Para o investimento em geração, ativos greenfield ou brownfield, é muito importante conhecer qual é a fonte da energia. Atualmente, as renováveis como vento e sol, tem tido maior receptividade pelos investidores, sendo a principal vantagem a contribuição para a redução de emissão de CO2. Os dados fornecidos pelo MME (Ministério de Minas e Energia) para 2019 mostram que 46% da oferta interna de energia no Brasil são de fontes renováveis.

Já os ativos de transmissão, os considerados greenfield possuem riscos de licenças, de instalação, ambiental e construção e obviamente execução do projeto. Estes riscos são comuns para os investimentos realizados em projetos que ainda “estão no papel” mas que por este motivo têm potencial para gerar altos retornos para o investidor. No entanto, após superar estas etapas de desenvolvimento e entrar em operação comercial, o ativo apresenta risco baixíssimo, pois será remunerado pela RAP (Receita Anual Permitida), que é ajustada anualmente IGP-M e revisada a cada 4 ou 5 anos. Desta forma, podemos considerar que o ativo possui alta previsibilidade de remuneração e ainda baixo risco de demanda, pois a rua receita está atrelada a energia que é disponibilizada para o sistema e não pelo volume consumido pela população.

Blog Abrapp – Poderia analisar também as oportunidades com saneamento?

Suzana Vescovi – Vislumbramos uma enorme oportunidade na parte de Saneamento para os próximos anos, que está só começando aqui no Brasil. Atualmente apenas 46% do esgoto é tratado, 47% da população não possui esgoto coletado e, por fim, 38% da água é perdida quando distribuída para os consumidores. O marco regulatório do setor somado à crise sanitária causada pelo Covid-19, quando se tornou essencial aspectos de higiene pessoal para reverter a expansão do vírus, resulta em ambiente promissor de investimentos, estimados em R$ 400 bilhões até 2033.

Blog Abrapp – Poderia explicar por que os investimentos em energia possuem descorrelação com outras classes de ativos da Bolsa e outras classes?

Suzana Vescovi – Os investimentos alternativos, que englobam os investimentos em ativos de energia, são vistos como diversificadores de portfólios e, idealmente, reduzem o risco sem modificar a expectativa de retorno. Os riscos que estes ativos apresentam são muito diferentes quando comparados com ações, renda fixa ou multimercados. Por exemplo, quando pensamos em um ativo greenfield, ou seja, projetos que ainda estão no papel, os principais riscos são a obtenção das licenças de construção, instalação, ambiental e a própria execução do projeto. Outro aspecto importante é a liquidez que acaba sendo mais tímida dado o número inferior de participantes deste tipo de investimento em relação aos ativos convencionais e a maturação em prazo mais longo. Desta forma, os investidores com mais parcimônia e que enxergam que os riscos se bem endereçados podem ser mitigados, se aproveitam desta dinâmica, mas exigem um retorno maior para compensar estes riscos, enquanto outros simplesmente a evitam.

Blog Abrapp – Como funciona a liquidez e os prazos dos fundos de infraestrutura? Quais as vantagens desses fundos?

Suzana Vescovi – Alguns fundos de investimentos em participações que investem em ativos relacionados ao setor de infraestrutura estão listados na B3. Sua negociação pode ser feita da mesma forma que uma ação, através da sua corretora ou plataforma de investimento. Outra forma de investir nesta classe de ativos é através de fundos que seguem as normas da instrução CVM 476/2009. Neste caso, o investidor fica com a liquidez do ativo mais restrita, pois precisa esperar até o fim do prazo do fundo ou alguma estratégia de saída para os investidores, através de um IPO do fundo por exemplo. A principal vantagem para ambas as opções, é o benefício fiscal nos rendimentos distribuídos e no ganho de capital para pessoa física. Esta segunda isenção tributária é prevista na lei 11478/2007 sobre incentivos ao investimento e Infraestrutura, que também exige que o fundo siga alguns pré-requisitos: (i) mínimo 5 Cotista, (ii) nenhum cotista detenha 40% ou mais da totalidade das cotas.

Blog Abrapp – Poderia explicar a opção pelos co-investimentos com outros parceiros?

Suzana Vescovi – Vislumbramos este caminho, pois acreditamos que o conhecimento técnico e especializado tem muito valor, então ter um parceiro estratégico com larga experiência no setor de atuação, traz um diferencial na mitigação dos riscos que mencionamos anteriormente. Para escolher os nossos parceiros em co-investimentos desprende-se muito tempo, esforço e conhecimento para identificar se estamos com os mesmos objetivos, ou seja, olhando para a mesma direção. Nesta etapa é essencial uma Due Diligence em todos os níveis da empresa potencial para a parceria. As principais parcerias que temos hoje são com a Alupar, para os projetos de transmissão, Casa dos Ventos para geração eólica e Mori Energia para geração solar distribuída. Todas essas empresas são líderes no seu segmento e possuem histórico de projetos já realizados que nos deu bastante conforto para iniciar a parceria.

Blog Abrapp – Quais os principais aspectos para se analisar na escolha de investimentos alternativos?

Suzana Vescovi – Um ponto que viemos observando desde o início da história de fundos de energia da Perfin, é que o investidor, em especial pessoa física, acumula muitas dúvidas sobre este tipo de investimento. O que é natural, pois trata-se de um produto com particularidades e que o investimento requer uma atenção minuciosa, além de ser mais novo para a maioria dos investidores que por muito tempo puderam ter bons retornos com ativos de baixo risco e por isso nem consideravam investimentos como esse. Por isso, sugerimos avaliar com calma os diferentes aspectos para ter segurança na sua escolha. Acreditamos que o mais importante é avaliar (i) quem é o parceiro responsável pela execução do projeto e experiência no setor (ii) a forma de remuneração do investimento (iii) riscos atrelados a construção dos ativos, tais como licenças ambientais, de instalação e (iv) alinhamento do gestor e seus sócios no investimento. Buscar informações diretamente nos sites das gestoras responsáveis pelo fundo ou diretamente com a área de Relações com Investidores, pode agregar muito no entendimento e melhorar a decisão do investidor.

Artigo: O ajuste de preços e as oportunidades para renda variável – por *Alexandre Sabanai

Artigo: O ajuste de preços e as oportunidades para renda variável – por *Alexandre Sabanai

Este ano de 2020 trouxe desafios raramente vistos para a sociedade e para a economia. O cenário pré-pandemia estava extremamente calmo e “previsível” com expectativa de aceleração do crescimento do PIB, estabilidade de juros em um patamar baixo de aproximadamente 4%, equacionamento do endividamento público com a aprovação da reforma da previdência e uma forte perspectiva de investimentos em setores como saneamento, concessões logísticas, infraestrutura e privatizações. Ou seja, estávamos vivenciando as condições climáticas ideais para a corrida das ações, principalmente as mais arrojadas.

Desde o final de 2019, a gestora Perfin Asset Management decidiu aumentar o nível de caixa de seus portfólios de renda variável indo na contramão do consenso do mercado. A implementação dessa estratégia mais defensiva se estendeu até início de 2020 combinando também compra de proteções (hedges) baseadas no preço do índice Bovespa. Elevamos o caixa para cerca de 30% do patrimônio dos fundos de ações, o dobro do padrão normal, e ficamos à espera do recuo das cotações. Aproveitamos, também, para realizar hedges de nossas carteiras. A decisão foi baseada em análise fundamentalista através do acompanhamento da projeção da taxa interna de retorno apertada que o time de gestão monitorava à época. Uma decisão nada trivial vis-à-vis o otimismo daquele momento com projeções do índice Bovespa chegando em 150 mil pontos.

O ajuste de preços começou na segunda quinzena de fevereiro e ganhou intensidade nas semanas seguintes, com a crise gerada pela pandemia da Covid-19. Entre a primeira e a segunda semanas de março, investimos 28% das nossas reservas de liquidez em ações. Aproveitamos que os fundos multimercados e os estrangeiros foram obrigados a vender suas posições com prejuízo pelas suas áreas de gerenciamento de risco em um movimento conhecido como stop loss que ocorre quando a volatilidade dos ativos fica muito elevada.

As escolhas recaíram, em sua maioria, sobre ações com as quais a gestora já operava, casos de Natura, Totvs, Cesp, Alupar, B3 e, num segundo movimento, a partir de abril, Hypera Pharma. Uma das investidas mais ousadas foi o reforço da posição na Iguatemi, nome de destaque em um dos segmentos mais afetados pelo surto do novo coronavírus, o de shopping centers. A opção por uma ação que acumulou desvalorização de 31,75% entre 1º de janeiro e 17 de junho foi baseada em critérios fundamentalistas de análise, seguidos à risca pela gestora.

Uma das abordagens utilizada para análise é a comparação do múltiplo obtido através da divisão do valor de mercado da empresa pelo seu lucro líquido (Preço/Lucro ou Price/Earnings). Observamos um processo interessante de expansão deste múltiplo de 2020 por dois motivos bem diferentes: (i) empresas que se beneficiaram por terem um crescimento acelerado do seu canal e-commerce beneficiado pelas medidas de isolamento social como por exemplo a Magalu e (ii) empresas em que o lucro líquido foi muito afetado pela pandemia, mas dado as ótimas perspectivas de normalização do lucro em 2021 tiveram uma forte recuperação do preço de suas ações como por exemplo a Localiza.

Apesar do otimismo em algumas teses específicas ligadas a dinâmica de recuperação da economia local, a gestora acredita que no curto prazo o índice Bovespa não tenha um desempenho tão positivo pois está ancorado por dois setores com peso grande no índice e que não devem apresentar fundamentos positivos nos próximos 12 meses: bancos e commodities.

Para os bancos, a visão é que a recuperação não vai se dar na sua plenitude em 2021 diferente do esperado em vários outros segmentos da economia e empresas. Atualmente os bancos estão com provisões altas para assegurar o cenário de inadimplência. Apesar de enxergar uma melhora da inadimplência para o próximo ano, acredita-se que estas provisões continuarão altas, para suprir o consumo das provisões do ano anterior e manter o índice de cobertura em um nível conservador. Se este cenário se concretizar, os bancos vão ter que manter o nível de Despesa de PDD (Provisões de Devedores Duvidosos) alto, prejudicando assim os resultados de lucros subsequentes.

Para empresas relacionadas às commodities (petróleo, minério, papel e celulose) a visão da gestora é cautelosa, pois independente do vencedor nas eleições presidenciais, devemos ver uma continuação das tensões comerciais entre China x EUA com forte impacto para cadeia industrial chinesa e consequentemente impactando a demanda por commodities em geral.

Ainda, existe um terceiro grupo no índice Bovespa que engloba empresas de diferentes segmentos tais como elétricas, tecnologia, varejo, consumo, infraestrutura entre outros na qual a Perfin acredita encontrar as melhores oportunidades de investimentos.

A gestora está otimista com a sua tese de CESP dado que a empresa segue como uma forte geradora de caixa, apresenta continuidade no processo de turnaround (pós privatização) e tem perspectiva de crescimento e diversificação de ativos de geração aproveitando a expertise e ativos “dentro de casa” da VTRM Energia Participações S.A. (controladora da CESP). Como também sendo potencial consolidadora para ativos quem venham a ficar disponíveis dado aperto de caixa de construtoras e pequenos players.

Nos últimos anos, a gestora vem diversificando o passivo dos seus fundos, através de plataformas, Multi e Single Family Offices, Bancos e espera ampliar a participação dos investidores institucionais, que já respondem por aproximadamente 12,5% do patrimônio líquido da estratégia de ações.

Atualmente, além da estratégia de ações, a Perfin faz gestão de alguns fundos direcionados ao investimento em infraestrutura através de FIPs (Fundos em Participações) no setor de energia (transmissão, eólico e solar). Acreditamos que o apetite dos fundos de pensão por FIPs só tende a crescer em um cenário de juros em patamares muito baixos.

*Sócio e gestor da Perfin Asset Management 

(As opiniões e conceitos emitidos no texto acima não refletem, necessariamente, o posicionamento do 
Grupo Abrapp a respeito do tema, sendo seu conteúdo de
 responsabilidade do autor)

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