Escolha uma Página
Artigo: O processo de recuperação econômica mundial – por Tatiana Pinheiro*, do BNP Paribas

Artigo: O processo de recuperação econômica mundial – por Tatiana Pinheiro*, do BNP Paribas

O advento das vacinas e a ampla liquidez internacional via expansão monetária e fiscal, que deve perdurar neste ano, servem como combustível no processo de recuperação econômica mundial. A depender do processo de vacinação, em grande parte da capacidade de adequação das vacinas às novas variantes do Covid, este ano deve ser marcado pelo movimento de recuperação econômica, pois muito foi perdido em termos de riqueza mundial e será um longo caminho de volta ao patamar pré-Covid. De acordo com o FMI, a economia mundial deve crescer 4,4% em média entre 2021 e 2023, bastante acima dos 3,6% registrados no período de 2010 a 2019.

Se as expectativas de recuperação econômica mundial se provarem corretas, estaremos em um ambiente mundial favorável a diversificação das carteiras e tomada de risco. Isto levará a ampliação do fluxo de capitais que funcionará como vento em popa não só para as economias avançadas como também para todas as economias emergentes. As economias que tiverem melhores histórias para contar usufruirão da maior parte deste fluxo, enquanto as demais ficarão com os efeitos marginais deste aumento do fluxo de capital. Lembrando que este caminho auspicioso da economia mundial deve acontecer com volatilidade, como alguns ou vários solavancos ao longo do percurso.

Pontos chaves a serem monitorados: 1) o ritmo de recuperação da economia chinesa e seus efeitos no comércio mundial – recentemente o fortalecimento da economia chinesa impulsionou o comércio mundial, especificamente o de commodities, que estava estagnado no período pré-Covid –, 2) o potencial de pressão dos gastos fiscais sobre preços – o debate da reflação no mundo que pode antecipar os processos de normalização monetária, reduzindo o impulso monetário para movimento de recuperação econômica esperado – e, principalmente 3) o ritmo da vacinação mundial.

Até meados de fevereiro a vacinação já tinha sido iniciada em 90 países, mas apenas 2,4% da população mundial tinha recebido pelo menos uma dose da vacina. Ao mesmo tempo, o número de novos casos e de mortes ao redor do globo ainda estavam próximos de seus picos prévios. As dificuldades no processo de vacinação são muitas: capacidade de produção para fazer frente à demanda instantânea, logística e engajamento da população.

Neste jogo, a estratégia vencedora é a que contempla conhecimento técnico, organização e agilidade. Um caso, até agora bem-sucedido, é o processo de vacinação em Israel, onde quase 1/3 da população já recebeu todas as doses da vacina contra o COVID. Mantido este ritmo, Israel poderá dar em breve parâmetros para o mundo sobre qual é a melhor estratégia para o alcance da imunização em massa, sobre o tempo até o alcance da imunização e sobre a duração da imunização adquirida por vacinação nos vários cortes etários.

Um fator a ser ressaltado no processo de vacinação em massa é o efeito da restrição de oferta de vacina, principalmente para países populosos. Tudo indica que estamos no caminho certo, mas que este será longo. Por isso, antevemos que as políticas expansionistas fiscais e monetárias ainda serão necessárias para mitigar os impactos destruidores de capital físico e humano desta pandemia. Nesta linha, os EUA debatem mais uma extensão do programa fiscal de assistência social às famílias e empresas no montante de US$ 1,9 trilhões, sendo que no final de dezembro já tinham sido adicionados US$ 900 bilhões aos mais de US$ 2 trilhões já executados em 2020.

A União Europeia deve seguir o mesmo caminho. Esperamos que a China continue focando seus esforços fiscais para a manutenção dos negócios, assim como fez em 2020. Com isso, o panorama é de reforço do processo de recuperação econômica mundial, a despeito da piora recente da pandemia. Esperamos que as economias americana e chinesa cresçam 6,4% e 7,8%, respectivamente. Essas duas economias somam 40,7% do PIB mundial e contribuirão para que o mundo cresça ao ritmo médio de 6,9% este ano.

O Brasil deve seguir recebendo os efeitos positivos do cenário internacional de alcance da imunização em massa/controle pandêmico nas economias avançadas e de ampla liquidez internacional. Os pontos chaves a serem monitorados aqui são: 1) o processo de vacinação – o atraso no processo de vacinação, a limitação do número de opções de vacinas disponíveis e o colapso do sistema de saúde pública em algumas regiões do país aumentam a pressão por mais gastos fiscais, fora que ameaçam o ritmo de recuperação econômica iniciado no segundo semestre de 2020 –, 2) a condução da política fiscal – manter o regime fiscal vigente e aprovar as medidas fiscais estruturais são essenciais para o controle do endividamento público e, consequentemente, a manutenção da confiança na solvência do país (tão importante para a atração de capitais); 3) ritmo de recuperação da economia.

A vacinação é crucial para o sucesso da manutenção do atual regime fiscal e junto com o sucesso da votação da agenda de reformas estruturantes no congresso poderiam fazer com que o Brasil abocanhasse parte significativa do fluxo de capital que deve ser dirigido aos ativos emergentes neste ano. O redimensionamento dos gastos públicos é importante para a capacidade de atração de capitais, não só devido aos seus efeitos diretos nos cenários de inflação e de juros, mas principalmente devido ao seu impacto no crescimento econômico, via o canal das expectativas/confiança.

Infelizmente, a necessidade de extensão do auxílio emergencial, assim como, outros programas assistenciais para suporte aos empregos faz com que o processo de ajustamento fiscal seja mais lento do que o imaginado. Este pior cenário de condução de política fiscal eleva a taxa de juros neutra da economia e pressiona a taxa de câmbio. Estimamos que o patamar da taxa de câmbio está descolado dos fundamentos econômicos em torno de R$1,50, em grande parte devido à piora da percepção do risco fiscal.

Estimamos que a taxa de juro neutra da economia esteja em torno de 3% e o crescimento potencial brasileiro, pós-choque da crise sanitária, esteja ao redor de 1%. A combinação desses fatores com a taxa de câmbio depreciada e as pressões de custos de produção, devido à alta dos preços de commodities (reflexo do bom ritmo de recuperação econômica mundial) deve resultar na retirada do impulso monetário extraordinário já no curto prazo.

O começo legislativo em fevereiro sob nova direção das casas promete maior coordenação entre governo e congressistas e, consequentemente, o destravamento de pautas e aprovações de leis e emendas constitucionais já em tramitação. Contudo, aqui também o caminho é longo.

Do lado das emergências/prioridades econômicas estão a aprovação do orçamento de 2021 e a aprovação da PEC Emergencial (gatilhos para contenção da ampliação dos gastos obrigatórios). Em uma segunda fase estão a Reforma Tributária (simplificação do sistema tributário e aumento da eficiência econômica), a Reforma Administrativa (efetiva redução da folha de pagamento do setor público em percentual do PIB ao longo dos próximos anos), PEC dos Fundos (disponibilização de cerca de R$ 170 bilhões de recursos em fundos infraconstitucionais), Lei do Gás, entre outros.

Por isso, é importante monitorar os debates no Congresso neste primeiro semestre. Os problemas e as possíveis soluções estão todas mapeadas, logo a possibilidade de evolução do processo de aprovação das medidas de ajuste fiscal existe. O que pode atrapalhar essa evolução é a provável antecipação do início do debate eleitoral de 2022 para o segundo semestre de 2021.

Nosso cenário base continua sendo a manutenção do atual regime fiscal, a aprovação de alguns dos gatilhos de contenção de gastos obrigatórios para os próximos dois anos, a evolução da agenda de reformas microeconômicas, mas sem conclusão das reformas macroeconômicas, o que resulta em continuidade do processo de recuperação cíclica da economia, inflação sem folga com relação às metas e a retirada do estímulo monetário. Neste sentido, para os negócios será importante o monitoramento do debate político e a adoção de estratégias de diversificação dos investimentos.

*Economista-chefe da BNP Paribas Asset Management Brasil. Trabalha com análise macroeconômica desde 1995, em instituições financeiras. Juntou-se ao grupo BNP Paribas em outubro de 2018. Economista graduada pela FEA – USP, mestre em Macroeconomia pelo Insper SP e em Finanças e Econometria pela Queen Mary College (University of London).

Cenário macroeconômico e diversificação no exterior são destaques de webinar sobre investimentos

Cenário macroeconômico e diversificação no exterior são destaques de webinar sobre investimentos

As perspectivas do cenário macroeconômico externo e doméstico e a importância da diversificação no exterior foram temas abordados em live realizada pelo BNP Paribas Asset Management e o Daycoval Asset Management nesta quarta-feira, 24 de fevereiro, com apoio da Abrapp. A live permanece disponível no canal da Abrapp no YouTube.

Na abertura do evento online, o Diretor Presidente da Abrapp, Luís Ricardo Martins, lembrou que a gestão de ativos e de investimentos tem sido um grande desafio dos profissionais e estrategistas do segmento, em especial no momento que o mundo vem atravessando, de pandemia. “No final de 2019, tivemos um excelente momento com a reforma da previdência, e estávamos colhendo os frutos em uma grande janela de oportunidades para o nosso segmento. Tivemos uma melhora fiscal e vínhamos de uma recuperação econômica. Era um momento ímpar, e o sistema também vivia um grande momento, superavitário, com solvência de mais de 100%, e de repente veio a pandemia”, disse.

Segundo ele, com resiliência, solidez e muito profissionalismo, as Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) conseguiram fechar o ano de 2020 batendo metas, apesar das dificuldades e incertezas. “As entidades fizeram sua lição de casa e tiveram essa recuperação, que podemos chamar de rápida, retornando a números de um momento pré-crise. E agora, daqui pra frente? Eu entendo que o segmento vem em um ciclo virtuoso e estamos conseguindo cumprir a missão de fazer a previdência complementar proteger o maior número de pessoas e chegar ao maior número de trabalhadores”.

Luís Ricardo citou planos família, fundos instituídos e previdência complementar de servidores públicos como cases de sucesso e que abrem ainda mais as possibilidade de crescimento do segmento. O Diretor Presidente da Abrapp destacou ainda que o segmento está preparado para alavancar a macroeconomia e financiar projetos de infraestrutura, fomentando a poupança de longo prazo. “Nesse momento, precisamos de políticas públicas para incrementar essa poupança de longo prazo”.


Diversificação –
Luís Ricardo reiterou que mesmo diante dos desafios do segmento, as estratégias traçadas nas políticas de investimento das EFPC, sempre adequadas e prestigiando o longo prazo, continuam indicando os melhores caminhos para o sistema. “As entidades terão que correr mais risco”, destacou, salientando que diversificação e alternativas de investimento continuam sendo palavras de ordem. “Temos que buscar a revisão da Resolução CMN nº 4.661”, disse, citando a necessidade de buscar, na norma, a ampliação do limite de investimentos no exterior, entre outras mudanças que estão em pauta.

Diante do comportamento da inflação e, consequentemente, das taxas de juros no Brasil, os investimentos no exterior estão cada vez mais em evidência dentro das fundações, conforme destacou o Diretor responsável pela área de Investimentos da Abrapp, Sergio Wilson Ferraz Fontes, que também é Diretor Presidente da Fundação Real Grandeza. “O grande motor para interesse maior de investidores, especialmente as EFPC, para investimentos no exterior foi esse cenário de juros, que estão muito baixos, até negativos”, disse, lembrando que quando as taxas de juros estavam altas, as entidades conseguiam cumprir com suas metas com mais facilidade sem necessidade de correr risco, mas esse cenário já não é mais o mesmo. Segundo ele, o investimento no exterior veio para ficar justamente para que as entidades possam fazer portfólios mais diversificados, melhorando o grau de risco em suas carteiras.

Exterior – Para o Head de Fundos de Fundo do BNP Paribas, Tiago Bellodi Costa Cesar, o investimento no exterior é importante, precisa ser feito, e a discussão agora é como deve ser executado. “É necessário equilibrar o portfólio para uma gestão de risco”. Ele explicou o processo de investimentos realizado pela gestora, que coloca a diligência como essencial para mitigar riscos. “Para que a gente olhe o investimento no exterior da mesma forma que olhamos os investimentos domésticos, precisamos de apoio”, disse, destacando que a gestora conta uma empresa dedicada à análise do risco internacional.

Segundo ele, há 10 anos, quando se iniciou a discussão de investimentos no exterior, havia poucas opções disponíveis no mercado. “Nos últimos 2 anos, houve um crescimento exponencial da oferta de fundos”, reiterou, sendo que estão mapeados dentro do escopo de fundos de fundos do BNP Paribas 47 fundos renda fixa e multimercado global, somando um patrimônio de R$ 5,8 bilhões; 55 fundos de renda variável sem hedge cambial, com patrimônio de R$ 12,6 bilhões; e 40 fundos de renda variável internacional com hedge cambial, totalizando R$ 7,3 bilhões em patrimônio.

Tiago Bellodi explicou ainda que o BNP Paribas Asset Management cobre todo o espectro de renda fixa e renda variável no mundo todo, além de ativos como ETFs, multiativos, entre outros. “Selecionamos e escolhemos os gestores com rigor e disciplina para começar a montar o portfólio de acordo com o perfil do cliente”, ressaltou, destacando que a macroalocação é o ponto de partida, e por isso é importante saber qual o panorama macroeconômico local e externo.

Para ele, o câmbio é um ponto importante na leitura do cenário, montando, assim, o portfólio de ativos com ou sem proteção cambial, dependendo do objetivo do investidor. “Quando falamos em fundos com perfil de renda fixa ou multimercados, costumamos trabalhar com hedge cambial por conta da volatilidade”, disse. Já na parte de ações, depende do portfólio do cliente, que pode adotar o dólar como amortecedor em uma carteira que tem zero exposição em dólar. “Já em portfólios maduros, compramos um fundo de bolsa global com câmbio travado, pois estamos olhando o retorno absoluto em reais no fator de risco da renda variável”, explicou, reforçando que essa é uma discussão feita cliente a cliente, sem ter uma solução única para todos.

Bellodi apresentou ainda exemplos de alocação em comparação com o benchmark de uma EFPC, calibrando a visão para cada classe de ativos. “A decisão do câmbio é tratada como parte do benchmark”. Ele reiterou que, em geral, as vantagens imediatas de aplicar em fundos no exterior são o custo mais competitivo, a parte operacional simplificada, e maior liquidez à carteira.

Cenário macro – Levando ao público um panorama do cenário macroeconômico tanto externo quanto doméstico, o Economista do Banco Daycoval, Rafael Gonçalves Cardoso, destacou o processos de imunização da Covid-19 pelo mundo, levando uma visão sobre países que estão mais avançados, e o impacto disso na recuperação da crise e retomada de confiança dos consumidores.

Outro ponto determinante na recuperação da economia global, segundo Rafael, é o estímulo fiscal dos Estados Unidos, que está discutindo a aprovação de um pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão, fazendo com que o PIB do país possa crescer cerca de 5% até 2022.

Já no cenário brasileiro, pela dificuldade do avanço no processo de imunização, o ritmo de recuperação deve ser mais lento. Rafael destacou que o cenário externo favorável e em recuperação cíclica é um contraponto em relação ao cenário doméstico, implicando em fatores limitadores do ritmo de crescimento do PIB do país. Com isso, a expectativa do Daycoval é que o crescimento da economia brasileira para 2021 seja de 3,1%.

Outros fatores que impactam a recuperação do Brasil são a taxa de câmbio; o encaminhamento de reformas pelo governo; o impacto fiscal; e a inflação, que tende a caminhar próximo à meta, podendo ser um problema relevante, a menos que não haja o andamento das reformas. O cenário base do Daycoval contempla uma normalização da taxa de juros, com um início de alta gradual pelo Banco Central em março, levando a taxa Selic a 3,75% no final de 2021, condicionando, assim, os juros baixos à continuidade das reformas.

BNP Paribas e Daycoval realizam live sobre investimentos com apoio da Abrapp

BNP Paribas e Daycoval realizam live sobre investimentos com apoio da Abrapp

O BNP Paribas Asset Management e o Daycoval Asset Management realizarão no dia 24 de fevereiro, às 15h, uma live sobre investimentos, com apoio da Abrapp. A transmissão ocorrerá por meio do canal da Abrapp no YouTube.

Participarão do evento online o Diretor Presidente da Abrapp, Luís Ricardo Martins; o Diretor responsável pela área de Investimentos da Abrapp, Sergio Wilson Ferraz Fontes; o Economista do Banco Daycoval, Rafael Gonçalves Cardoso; e o Head de Fundos de Fundo do BNP Paribas, Tiago Bellodi Costa Cesar.

Programe-se para participar da live, que tem como objetivo oferecer insights sobre o Brasil, abordando temas como inflação, juros e soluções de investimento no exterior.

Entrevista: A imprevisibilidade é a principal característica do mercado em 2020

Entrevista: A imprevisibilidade é a principal característica do mercado em 2020

Em entrevista exclusiva para o Blog Abrapp em Foco, Aquiles Mosca, Head Comercial, Marketing e Digital do BNP Paribas Asset Management analisa o cenário atual que, segundo ele, continua marcado pela persistência da imprevisibilidade e forte volatilidade dos mercados. “A pandemia continua como uma tônica para os mercados. Por isso, a volatilidade continua alta para os mercados”, diz o especialista ao se referir às novas ondas de contaminação de Covid-19 na Europa e Estados Unidos.

No cenário doméstico, para agravar a situação, existe o aumento do risco de desequilíbrio fiscal e aumento do tamanho da dívida pública. Diante desse cenário de incertezas, Aquiles reforça a importância de manter o olhar no longo prazo para aproveitar todas as oportunidades possíveis. E recomenda, além da busca de ativos com maior risco, como por exemplo, fundos no exterior, também a opção de classes prazos mais longos. Neste caso, ele fala da alternativa pelos fundos de infraestrutura. Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Blog Abrapp em Foco: Poderia analisar o cenário atual de investimentos?

Aquiles Mosca – O principal ponto de 2020 foi a reversão das expectativas que a pandemia trouxe em relação às expectativas para o ano. Entramos no ano esperando que haveria aceleração do crescimento. Seria um ano com continuidade das reformas. No ano passado tivemos a aprovação da Reforma da Previdência e existia muita expectativa neste ano de andamento das reformas Administrativa, Tributária, do próprio movimento de privatizações que daria um maior fôlego fiscal. E a pandemia trouxe tudo isso para baixo. Foi um momento de virada, de expectativas muito positivas para um ano de recessão recorde, com uma imprevisibilidade muito grande. 

Blog Abrapp – Poderia dizer que é um ano marcado pela imprevisibilidade e pela alta volatilidade?

Aquiles – É a principal característica de 2020. O auge da imprevisibilidade ocorreu em março e abril. Havia um nevoeiro muito denso. Era muito difícil de prever um ou dois meses para frente. Hoje a situação até melhorou um pouco, mas a imprevisibilidade continua. Isso fica claro com a segunda onda de contágio de Covid-19 que está ocorrendo lá fora. Nos Estados Unidos já se fala em terceira onda de contágio. O Brasil está um pouco atrás, mas o que está acontecendo em outros lugares, deve ocorrer aqui também. 

Blog Abrapp – Então, a pandemia continua como o principal driver do mercado?

Aquiles – A pandemia continua como uma tônica para os mercados. Por isso, a volatilidade continua alta para os mercados. Vamos de alguns meses de alta recorde na Bolsa para alguns meses de forte queda com pequeno intervalo entre um e outro. Isso deve se manter até que tenhamos um encaminhamento de desfecho para essa pandemia. 

Blog Abrapp – Além da pandemia, o que mais preocupa no cenário doméstico?

Aquiles – O que mais preocupa aqui no mercado doméstico é a questão fiscal. Com certeza, é a possibilidade de furar o teto de gastos. Existe o risco de não aprovar medidas estruturais de contenção de gastos, sem o avanço das reformas. Tudo bem que tivemos uma expansão dos gastos públicos no mundo inteiro, semelhante a um cenário de guerra. E nesses cenários limites, é compreensível que os governos façam esse tipo de gastos, façam esse tipo de endividamento. Mas é fundamental que passado o grosso da crise, a responsabilidade fiscal seja retomada. 

Blog Abrapp – Poderia comentar como esse risco de furar o teto de gastos está se expressando no mercado doméstico?

Aquiles – Vemos mês após mês a ocorrência de sinalizações que isso poderá acontecer. Depois surgem outros sinais que isso não vai acontecer. Fica essa incerteza em relação ao rumo das contas públicas. Existe a preocupação que o endividamento foi ampliado. Particularmente aqui, isso gera uma dúvida, esse é um dos principais fatores além da pandemia. É um fator adicional de risco no Brasil. 

Blog Abrapp – E isso não acontece em outros países?

Aquiles – Nos países onde não há esse temor ao descontrole nas contas públicas, provavelmente no momento de solução mais definitiva para a pandemia, com uma vacina, ou tratamento mais eficaz, eles irão recuperar mais rápido que nós. O governo tem volumes enormes de dívida para rolar nos próximos meses, terá de pagar juros mais altos. Isso por si só já é um custo adicional, que é o custo da desconfiança. 

Blog Abrapp – Quais armadilhas comportamentais devem ser evitadas nesses momentos de crise e alta imprevisibilidade que atravessamos atualmente?

Aquiles – É muito comum o investidor reduzir o horizonte de análise nesses momentos de incerteza. Acaba vendo o que está acontecendo nesta semana, no máximo dentro do mês. Sabemos que é difícil olhar horizontes mais longos nesses momentos. Sabemos que a crise é grave, mas ela tende a ser equacionada. Em mais um ou dois trimestres já teremos vacina ou tratamento. Daí o investidor que ficou preso no curto prazo, terá deixado oportunidades de investimentos importantes sobre a mesa . Essa tendência comportamental, de olhar só o curto prazo, é uma armadilha que principalmente o investidor institucional, as fundações, que têm um horizonte mais longo, deveriam evitar.

Blog Abrapp – Que tipos de oportunidades?

Aquiles – As fundações devem aproveitar esses momentos de incerteza que os ativos tendem a cair, em que os ativos ficam mais baratos, para evitar cair nessa armadilha. As oportunidades aparecem em vários setores, na Bolsa, no exterior, em infraestrutura. Elas podem ser muito variadas. Mas nesses momentos de crise, eles tendem a se retrair. E muitas vezes, quando decidem entrar novamente, os ativos já ficam mais caros. Até porque o curto prazo já não é uma alternativa. 

Blog Abrapp – Diante desse cenário, quais recomendações poderia passar para os investidores, em especial, para as fundações?

Aquiles – É preciso caminhar para uma complexidade de investimentos superior aos que as fundações estavam acostumadas. A renda fixa deixou de ser um porto seguro para garantir a meta atuarial. No mês de setembro, até nos fundos DI, foram registradas rentabilidades negativas. Isso ocorreu por conta da necessidade de rolagem da dívida pública. Vimos esse evento acontecendo devido aos prêmios maiores. E ficou claro para as fundações, que quem quiser prêmio maior, terá de fazer trocas. Ou aceitar nível de risco maior, indo para Bolsa, multimercados, exterior, ou aceitar prazos mais longos para suas aplicações. 

Blog Abrapp – Poderia comentar um pouco mais as possibilidades de se buscar retornos maiores?

Aquiles – Os investidores terão de deixar de aplicar no curto prazo para buscar prêmios nos prazos mais longos. E também terá de aceitar maior iliquidez, aplicando hoje e resgatando em 80, 100, 120 dias ou mais. Mais risco, mais prazo ou menos liquidez. Esse é o trinômio de troca que as fundações precisarão lidar com maior frequência. Aceitar mais prazo ou menos liquidez deveria ser muito natural para as fundações que, por natureza, têm uma característica de longo prazo. Estamos falando de recursos para a aposentadoria daqui a 10, 20 ou 30 anos. Há uma certa vocação das fundações para esse tipo de investimento com prazos mais longos e menos líquidos. 

Blog Abrapp – Quais as principais opções nos ativos líquidos?

Aquiles – Temos percebido maior procura por investimentos no exterior. Por conta das dúvidas no mercado doméstico, até por causa do risco fiscal, porque não investir lá fora para acessar setores e empresas que não existem em nossa Bolsa? O que está liderando as Bolsas no mundo todo é o setor de biotecnologia, farmacêutico, entretenimento digital. São setores que nem existem em nossa Bolsa doméstica. Agora é que começam a aparecer com esse movimento de BDRs, mas ainda de forma restrita. Os investimentos no exterior devem ser utilizados de forma crescente em nossa avaliação.  

Blog Abrapp – Qual a sua opinião sobre a demanda de aumento do limite para investimentos no exterior que consta na Resolução CMN 4.661/2018 além dos 10% do patrimônio permitidos atualmente?

Aquiles – Acredito que é a tendência natural. Se levarmos em consideração os mercados mais desenvolvidos, dos Estados Unidos e da Europa, não existe limite para aplicar no exterior. Pòr exemplo, um fundo francês pode aplicar, se quiser, até 100% de seu patrimônio no exterior, seja nos Estados Unidos, na Ásia, seja onde for. Aqui no Brasil ainda predomina essa visão um pouco antiquada que, se abrir muito as regras, a poupança nacional irá embora. E não foi o que aconteceu em outros mercados, até de nossa região. 

Blog Abrapp – Poderia dar alguns exemplos?

Aquiles – Se olharmos outros países da região como México e Chile, eles já têm essa capacidade mais ampla de investir no exterior. Isso vai acontecer em nosso mercado e será benefício para todos os tipos de investidores, inclusive para as fundações. É muito positivo contar com a possibilidade de investir em escala global e acessar setores que não existem por aqui, pois agrega possibilidades de retorno, equilibra no risco na carteira e o risco ajustado pelo retorno torna-se mais saudável.

Blog Abrapp – Quais as outras opções além de ativos no exterior?

Aquiles – Falando da indústria de ativos líquidos, onde atuamos, temos os fundos de infraestrutura. É uma alternativa muito interessante. Estamos falando em papéis de empresas que investem em projetos de empresas de longo prazo, de 10, 12 15 ou até 18 anos. É a poupança de longo prazo. E as fundações, por vocação, são os grandes financiadores da infraestrutura. Estamos falando de projetos de geração de energia, de financiamento de portos, aeroportos, ferrovias, entre outros.

Blog Abrapp – Por que as fundações teriam interesse em investir nos fundos de infraestrutura?

Aquiles – Com um horizonte de aplicação de 10 a 20 anos, em investimentos, esses fundos tendem a ser vocacionados para as fundações. Tendem a remunerar bastante acima da inflação por conta do prazo mais alongado. Estamos falando de retornos de inflação mais 3% ou até mais 6% ao ano. Há outros tipos de investimentos ilíquidos, imóveis por exemplo. Mas dentro do BNP Paribas, do universo de fundos de investimentos, temos os fundos de infraestrutura, para buscar melhores retornos com prazos maiores. 

(As opiniões e conceitos emitidos na entrevista acima não refletem, necessariamente, o posicionamento da Abrapp a respeito do tema)

 

Newsletter Abrapp em Foco

Cadastre-se e fique por dentro de tudo que acontece no Grupo Abrapp e em sintonia com os fatos mais relevantes do setor.