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Artigo: O almoço de graça e os investimentos – *por Eduardo Câmara Lopes

Artigo: O almoço de graça e os investimentos – *por Eduardo Câmara Lopes

Portfólio internacional diversificado é apenas a maneira inteligente de construir esta exposição ao dólar

Era uma vez, há cerca de quatro anos, um CDI de 14% ao ano. Do ponto de vista de investimentos, que é o foco do artigo, o CDI na faixa de 14% era uma facilidade, um verdadeiro investimento. Você montava seu portfólio talvez com um pouco de ações e um pouco de multimercado, e um monte de CDI – porque o CDI fazia o trabalho sujo do seu portfólio. Era um investimento bom com ótimo retorno e baixo risco, se você acreditasse na solvência do governo federal.

Eis que o CDI hoje está em cerca de 2% ao ano. CDI não é mais investimento. CDI neste ambiente passará a ser apenas instrumento de gestão de liquidez. Claro que ainda estamos no meio de uma pandemia e ainda temos muitas incertezas no ar, mas quando a poeira baixar, quando assoprarmos e vermos o que sobrou na mesa, temos um CDI de 2% ao ano. Ainda que acreditemos que o CDI deva começar a subir este ano em um ciclo que terminará em cerca de 4%, estaremos em um nível de taxa básica que é um problema para o modelo atual de alocação de portfólio da maioria dos indivíduos e instituições.

Para buscar retornos perto do saudoso CDI a 14% ao ano, você vai ter que se acostumar com mais ativos de risco como ações, fundos multimercados, crédito high yield, entre outros no seu portfólio.

O risco em si não é um problema, inclusive passará a ser a nova realidade. A concentração de risco, por sua vez, deverá ser o foco de atenção. Para evitar a concentração de risco, uma decisão inteligente é a diversificação. Você pode compor seu portfólio com diferentes ativos que tenham correlação baixa, eventualmente alguns até com correlação negativa entre si, de forma que você consiga ter um portfólio mais balanceado e protegido.

Nesse contexto, nada será mais natural do que buscar riscos com fontes de retornos diferentes em mais mercados e ambientes diferentes. Assim cresce o interesse por investidores profissionais e amadores por investimentos internacionais.

E isso faz todo sentido quando vemos que o dólar tem tipicamente uma correlação negativa com ativos domésticos. Historicamente, quando a bolsa sobe, o dólar cai contra o real. E o contrário é verdadeiro; quando a aversão a risco aumenta e a bolsa aqui no Brasil cai, tipicamente o dólar sobe. Então, se você quiser tomar mais risco no geral, mas de maneira mais balanceada, ter dólar compondo com um portfólio local de ações, ou multimercados ou outros ativos locais em geral, faz todo sentido.

Mas podemos ir além, e dar um passo maior na diversificação buscando também mais retorno. Ao invés de simplesmente comprar dólar, que é apenas uma exposição a uma moeda, você pode diversificar mais compondo a carteira com vários ativos internacionais.

Colocando na prática, na Itaú Asset, por exemplo, construímos um fundo no final de 2019 chamado Carteira Itaú, com uma carteira de investimentos completa: diversificamos o portfólio local, inclusive com gestores terceiros selecionados pela nossa área de fundos de fundos, e adicionalmente alocamos parte do portfólio em investimentos internacionais, que geram retornos vinculados à variação do dólar e a ativos internacionais que o compõem, como bolsas e renda fixa ao redor do mundo, de países desenvolvidos e emergentes, e commodities.

O ponto aqui é que em um ambiente de juros mais baixos, no qual 14% ao ano parece um passado distante que não deveremos ver tão cedo – se é que veremos novamente -, tomar mais risco é inevitável e o portfólio internacional (em dólar) é importantíssimo para contrabalancear o risco adicional. O peso ideal desse portfólio internacional na sua carteira total depende do nível de risco que você está disposto a correr. Quanto mais risco tolerar nos ativos locais, mais dólar deveria ter no portfólio total para contrabalancear.

Um portfólio internacional diversificado é apenas a maneira inteligente de construir esta exposição ao dólar, trazendo mais possibilidades de fontes de retorno. Você não quer e não precisa ter apenas exposição ao retorno do dólar. É possível fazer algo melhor, com uma diversificação inteira da carteira.

No mercado financeiro não existe almoço de graça. Mas o mais próximo disso é a diversificação: você consegue aumentar seu retorno para um determinado risco do seu portfólio ou você diminui o risco do seu portfólio para um determinado objetivo de retorno. Nesse contexto, o componente internacional, preferencialmente também diversificado, não é apenas desejável, mas fundamental.

*CIO da Itaú Asset Management

Cenário macroeconômico e diversificação no exterior são destaques de webinar sobre investimentos

Cenário macroeconômico e diversificação no exterior são destaques de webinar sobre investimentos

As perspectivas do cenário macroeconômico externo e doméstico e a importância da diversificação no exterior foram temas abordados em live realizada pelo BNP Paribas Asset Management e o Daycoval Asset Management nesta quarta-feira, 24 de fevereiro, com apoio da Abrapp. A live permanece disponível no canal da Abrapp no YouTube.

Na abertura do evento online, o Diretor Presidente da Abrapp, Luís Ricardo Martins, lembrou que a gestão de ativos e de investimentos tem sido um grande desafio dos profissionais e estrategistas do segmento, em especial no momento que o mundo vem atravessando, de pandemia. “No final de 2019, tivemos um excelente momento com a reforma da previdência, e estávamos colhendo os frutos em uma grande janela de oportunidades para o nosso segmento. Tivemos uma melhora fiscal e vínhamos de uma recuperação econômica. Era um momento ímpar, e o sistema também vivia um grande momento, superavitário, com solvência de mais de 100%, e de repente veio a pandemia”, disse.

Segundo ele, com resiliência, solidez e muito profissionalismo, as Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) conseguiram fechar o ano de 2020 batendo metas, apesar das dificuldades e incertezas. “As entidades fizeram sua lição de casa e tiveram essa recuperação, que podemos chamar de rápida, retornando a números de um momento pré-crise. E agora, daqui pra frente? Eu entendo que o segmento vem em um ciclo virtuoso e estamos conseguindo cumprir a missão de fazer a previdência complementar proteger o maior número de pessoas e chegar ao maior número de trabalhadores”.

Luís Ricardo citou planos família, fundos instituídos e previdência complementar de servidores públicos como cases de sucesso e que abrem ainda mais as possibilidade de crescimento do segmento. O Diretor Presidente da Abrapp destacou ainda que o segmento está preparado para alavancar a macroeconomia e financiar projetos de infraestrutura, fomentando a poupança de longo prazo. “Nesse momento, precisamos de políticas públicas para incrementar essa poupança de longo prazo”.


Diversificação –
Luís Ricardo reiterou que mesmo diante dos desafios do segmento, as estratégias traçadas nas políticas de investimento das EFPC, sempre adequadas e prestigiando o longo prazo, continuam indicando os melhores caminhos para o sistema. “As entidades terão que correr mais risco”, destacou, salientando que diversificação e alternativas de investimento continuam sendo palavras de ordem. “Temos que buscar a revisão da Resolução CMN nº 4.661”, disse, citando a necessidade de buscar, na norma, a ampliação do limite de investimentos no exterior, entre outras mudanças que estão em pauta.

Diante do comportamento da inflação e, consequentemente, das taxas de juros no Brasil, os investimentos no exterior estão cada vez mais em evidência dentro das fundações, conforme destacou o Diretor responsável pela área de Investimentos da Abrapp, Sergio Wilson Ferraz Fontes, que também é Diretor Presidente da Fundação Real Grandeza. “O grande motor para interesse maior de investidores, especialmente as EFPC, para investimentos no exterior foi esse cenário de juros, que estão muito baixos, até negativos”, disse, lembrando que quando as taxas de juros estavam altas, as entidades conseguiam cumprir com suas metas com mais facilidade sem necessidade de correr risco, mas esse cenário já não é mais o mesmo. Segundo ele, o investimento no exterior veio para ficar justamente para que as entidades possam fazer portfólios mais diversificados, melhorando o grau de risco em suas carteiras.

Exterior – Para o Head de Fundos de Fundo do BNP Paribas, Tiago Bellodi Costa Cesar, o investimento no exterior é importante, precisa ser feito, e a discussão agora é como deve ser executado. “É necessário equilibrar o portfólio para uma gestão de risco”. Ele explicou o processo de investimentos realizado pela gestora, que coloca a diligência como essencial para mitigar riscos. “Para que a gente olhe o investimento no exterior da mesma forma que olhamos os investimentos domésticos, precisamos de apoio”, disse, destacando que a gestora conta uma empresa dedicada à análise do risco internacional.

Segundo ele, há 10 anos, quando se iniciou a discussão de investimentos no exterior, havia poucas opções disponíveis no mercado. “Nos últimos 2 anos, houve um crescimento exponencial da oferta de fundos”, reiterou, sendo que estão mapeados dentro do escopo de fundos de fundos do BNP Paribas 47 fundos renda fixa e multimercado global, somando um patrimônio de R$ 5,8 bilhões; 55 fundos de renda variável sem hedge cambial, com patrimônio de R$ 12,6 bilhões; e 40 fundos de renda variável internacional com hedge cambial, totalizando R$ 7,3 bilhões em patrimônio.

Tiago Bellodi explicou ainda que o BNP Paribas Asset Management cobre todo o espectro de renda fixa e renda variável no mundo todo, além de ativos como ETFs, multiativos, entre outros. “Selecionamos e escolhemos os gestores com rigor e disciplina para começar a montar o portfólio de acordo com o perfil do cliente”, ressaltou, destacando que a macroalocação é o ponto de partida, e por isso é importante saber qual o panorama macroeconômico local e externo.

Para ele, o câmbio é um ponto importante na leitura do cenário, montando, assim, o portfólio de ativos com ou sem proteção cambial, dependendo do objetivo do investidor. “Quando falamos em fundos com perfil de renda fixa ou multimercados, costumamos trabalhar com hedge cambial por conta da volatilidade”, disse. Já na parte de ações, depende do portfólio do cliente, que pode adotar o dólar como amortecedor em uma carteira que tem zero exposição em dólar. “Já em portfólios maduros, compramos um fundo de bolsa global com câmbio travado, pois estamos olhando o retorno absoluto em reais no fator de risco da renda variável”, explicou, reforçando que essa é uma discussão feita cliente a cliente, sem ter uma solução única para todos.

Bellodi apresentou ainda exemplos de alocação em comparação com o benchmark de uma EFPC, calibrando a visão para cada classe de ativos. “A decisão do câmbio é tratada como parte do benchmark”. Ele reiterou que, em geral, as vantagens imediatas de aplicar em fundos no exterior são o custo mais competitivo, a parte operacional simplificada, e maior liquidez à carteira.

Cenário macro – Levando ao público um panorama do cenário macroeconômico tanto externo quanto doméstico, o Economista do Banco Daycoval, Rafael Gonçalves Cardoso, destacou o processos de imunização da Covid-19 pelo mundo, levando uma visão sobre países que estão mais avançados, e o impacto disso na recuperação da crise e retomada de confiança dos consumidores.

Outro ponto determinante na recuperação da economia global, segundo Rafael, é o estímulo fiscal dos Estados Unidos, que está discutindo a aprovação de um pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão, fazendo com que o PIB do país possa crescer cerca de 5% até 2022.

Já no cenário brasileiro, pela dificuldade do avanço no processo de imunização, o ritmo de recuperação deve ser mais lento. Rafael destacou que o cenário externo favorável e em recuperação cíclica é um contraponto em relação ao cenário doméstico, implicando em fatores limitadores do ritmo de crescimento do PIB do país. Com isso, a expectativa do Daycoval é que o crescimento da economia brasileira para 2021 seja de 3,1%.

Outros fatores que impactam a recuperação do Brasil são a taxa de câmbio; o encaminhamento de reformas pelo governo; o impacto fiscal; e a inflação, que tende a caminhar próximo à meta, podendo ser um problema relevante, a menos que não haja o andamento das reformas. O cenário base do Daycoval contempla uma normalização da taxa de juros, com um início de alta gradual pelo Banco Central em março, levando a taxa Selic a 3,75% no final de 2021, condicionando, assim, os juros baixos à continuidade das reformas.

Investimentos no exterior são destaque de rentabilidade na carteira da Vivest em 2020

Investimentos no exterior são destaque de rentabilidade na carteira da Vivest em 2020

Em um ano conturbado como o de 2020, em que as Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) tiveram que ser cautelosas em relação às estratégias de investimentos, a Vivest alcançou bons resultados puxados pelos investimentos no exterior, que tiveram rentabilidade e de 32,3% no acumulado do ano. A entidade encerrou o período com rentabilidade nominal acumulada de 14,34%, resultado que supera a rentabilidade anual média de 5,51% atingida pelos fundos multimercados medidos pelo índice IHFA (índice de Hedge Funds da Anbima).

O resultado ocorreu, contudo, depois de vários períodos de incertezas decorrentes dos efeitos da pandemia de Covid-19 no mercado financeiro e no mundo todo. “O epicentro da crise foi no mês de março, quando todos ativos financeiros sofreram queda. No início daquele mês, vendemos R$ 1,2 bilhão em renda variável e resgatamos R$ 800 milhões aproximadamente de aplicações em fundos multimercados. Essa foi a movimentação mais significativa que fizemos”, diz o Diretor de Investimentos da Vivest, Jorge Simino, em entrevista ao Blog Abrapp em Foco.

Segundo Simino, esse foi um movimento de defesa feito pela equipe de investimentos da entidade no início da crise. “Ninguém sabia o que ia acontecer, as dúvidas eram gigantes do ponto de vista da pandemia e economia. No começo de abril, todos os governos fizeram movimentos de prover liquidez para o mercado como um todo, seja via política monetária ou fiscal”, lembra. “Com isso, retomamos o risco a partir da segunda quinzena de abril”.

Na primeira retomada de investimento em ativos de risco, a Vivest aplicou R$ 400 milhões em renda variável doméstica. “Esperamos mais um pouco para ter mais clareza, e entre junho e julho, investimos R$ 850 milhões em renda variável no exterior, quando tivemos uma convicção maior de um momento de recuperação em função da liquidez dada pelas políticas adotadas pelo governo”, explica Simino.

Investimento no exterior – A performance de abril para frente, segundo Simino, foi decorrente de uma recuperação do mercado, sendo que a entidade saiu de um resultado consolidado negativo de 4,7% no primeiro trimestre para uma rentabilidade de 20,6% no o plano BSPS; de 18,9% no BD, e de 16,45% no CV entre abril e dezembro. “Tivemos uma boa recuperação dado o tamanho do risco tomado”.

Já no início de 2021, Simino explica que as estratégias adotadas serão mantidas, sem nenhum movimento muito significativo. A expectativa, contudo, é que haja um incremento do limite para investimentos no exterior via regulamentação. A Resolução CMN nº 4.661/2018 estabelece um limite máximo de 10% de alocações do total de investimentos das EFPC em ativos no exterior. “Do ponto de vista de análise e fundamento, eu gostaria de ter mais dinheiro em renda variável no exterior. Hoje temos pouco menos de um R$ 1 bilhão e gostaria de ter até R$ 2,5 bilhões”, diz.

A fundação se aproxima do limite de 10% investidos no exterior em seus planos de Contribuição Variável. “Lembrando que as EFPC têm gestão profissional, seja uma parte terceirizada ou uma parte interna, e o pessoal está devidamente capacitado a fazer esse tipo de decisão”, reitera o Diretor de Investimentos da Vivest.

Meta atuarial – Apesar de ter alcançado o resultado de 14,34% em 2020, o desempenho ficou abaixo do necessário para atingir a meta atuarial do ano, que chegou ao patamar histórico de 30,81%. Isso ocorreu por conta da disparada do IGP-DI, indexador dos planos de benefício da Vivest, tornando a meta atuarial de 2020 um desafio sem precedentes, na visão de Simino. “É uma meta de impossível alcance”, destaca.

Simino ressalta que há uma discussão para troca do índice da meta atuarial na fundação há 12 anos. “Apresentamos, em 2009, para a governança da entidade essa necessidade. Na época, o Tesouro Nacional disse que não emitiria mais as notas série C, atreladas ao IGPM. Alertamos à governança que teríamos um problema de descasamento, pois não haveria mais ativos atrelados ao IGPM”, explica.

Após várias discussões, a Vivest retomou a conversa entre 2018 e 2019, apresentando novamente à governança da entidade o projeto de troca do indexador, e no começo de 2020 dois planos o aprovaram. “A governança individual dos planos aceitou a decisão, que foi ratificada pelo Conselho Deliberativo, enviando à Previc para aprovação”. Simino explica que a Vivest ainda está no aguardo da validação da proposta pela autarquia.

Artigo: O momento para os investidores brasileiros considerarem os mercados globais é agora – Por Yoram Lustig*

Artigo: O momento para os investidores brasileiros considerarem os mercados globais é agora – Por Yoram Lustig*

Historicamente, as altas taxas de juros domésticas e os rendimentos dos títulos significavam que os investidores brasileiros podiam satisfazer a maioria de suas necessidades de investimento alocando principalmente em títulos do governo brasileiro. No entanto, no momento atual, a queda nas taxas mudou esse cenário. Hoje, não há dúvidas: os investidores podem e devem ampliar o seu olhar e passarem a considerar oportunidades futuras como, por exemplo, os mercados globais.

Para ajudar a entender essa nova conjuntura, é importante contextualizar alguns pontos que considero cruciais para os próximos passos dos investidores, rumo aos mercados globais. Os retornos patrimoniais globais sem hedge têm sido, historicamente, correlacionados de forma equivocada com os ativos brasileiros. Em síntese, os títulos investment grade globais protegidos contra o real brasileiro exibiram baixa volatilidade – menos de 3% – com retornos elevados devido ao carrego positivo do hedge cambial.

Nesse contexto, reforço a importância de ter em mente que adicionar investimentos estrangeiros – tanto ações quanto títulos – à uma carteira de ativos brasileiros, pode aumentar o retorno e mitigar riscos. Este é, de fato, o momento oportuno para os investidores brasileiros considerarem esta diversificação.

Até agora, os investidores no Brasil costumavam favorecer duas classes de ativos: títulos do governo brasileiro e ações brasileiras. Com taxas de juros de curto prazo superiores a 10%, os retornos dos títulos públicos foram suficientes para atender às necessidades da maioria dos investidores.

O governo brasileiro não deixou de pagar sua dívida soberana desde 1898; a dívida soberana indexada à inflação oferece uma proteção contra a devastação da inflação e rendimentos reais atraentes; e não há risco de moeda porque os títulos são denominados em reais. Então, com uma relação risco / retorno como essa, por que investir em outra coisa?

Um dos principais motivos é que os mercados no Brasil estão mudando. Conforme ilustrado na Figura 1 (abaixo), em meados de 2017, as taxas de juros de curto prazo no Brasil caíram abaixo de 10% e permaneceram lá, atingindo uma baixa recorde de 2,00%.

Mas é importante ponderar que essa queda nas taxas é uma bênção e uma maldição. O aspecto positivo é que se trata de um subproduto de níveis de inflação mais controlados (abaixo de 5%) e da saída do país da recessão em 2019, com a esperança de reformas necessárias e melhoria das condições econômicas daqui para frente.

Por outro lado, a desvantagem é que, se as taxas permanecerem baixas, ou mesmo caírem ainda mais, os títulos públicos por si só dificilmente proporcionarão rendimentos suficientes em termos reais e ganhos de capital para satisfazer as necessidades de retorno dos investidores. Logo, não há dúvidas de que os investidores brasileiros devem pensar em mudar seus hábitos.

Figura 1: Taxas de curto prazo, inflação e taxa de crescimento do PIB

Fonte: T.Rowe Price, CETIP, IBGE. Brazil Cetip DI Interbank Deposit Rate, Brazil CPI IPCA YoY, Brazil GDP YoY 1995 = 100. Março de 2000 a Junho de 2020, números trimestrais.

A busca pelo crescimento

A queda nas taxas de juros motivou mais investidores domésticos a aumentar sua alocação em ações brasileiras. Como os rendimentos e ganhos potenciais de capital dos títulos brasileiros diminuíram, os investidores estão em busca de novos motores de crescimento em suas carteiras e fontes de retornos potenciais atraentes para cumprir seus objetivos de investimento.

Mas existem dois desafios principais ao investir no Ibovespa. Um é que se trata de um índice concentrado em termos de número de constituintes e setores. Ou seja, inclui menos de 80 títulos: quase 40% do índice está em finanças e cerca de 30% em materiais e energia. O segundo desafio com o Ibovespa é que ele tem sido, historicamente e por natureza, volátil (volatilidade anualizada em torno de 24%, em comparação com cerca de 16% das ações globais). Os investidores que tradicionalmente aportam em títulos públicos podem achar que é um desafio lidar com as baixas experimentadas pelas ações brasileiras.

Outro fator importante a ser considerado é que a queda dos rendimentos dos títulos também gerou um interesse crescente em investimentos estrangeiros. Embora muitos investidores brasileiros estejam em seus estágios iniciais de investimento no exterior, geralmente com uma alocação inferior a 1%, a expectativa é que a alocação para esses investimentos cresça com o tempo. Recentemente, o regulador brasileiro simplificou a aplicação em investimentos estrangeiros para fundos de pensão relaxando as regras e reduzindo as restrições. Dessa forma, é seguro afirmar que os méritos para investimentos fora do Brasil são fortes e abundantes.

Os benefícios dos investimentos estrangeiros

Seguindo a linha de raciocínio exposta até aqui, em nossa perspectiva, os investidores podem obter resultados significativamente melhores adicionando renda fixa e ações estrangeiras às carteiras de ativos domésticos.

Vale reforçar mais uma vez que, em primeiro lugar, a correlação entre os retornos das ações globais – medidos pelo Índice MSCI All Country World (ACWI) – e os retornos dos títulos do governo brasileiro tem sido historicamente negativa. Isso significa que adicionar ações globais à uma carteira predominantemente investida em títulos brasileiros pode reduzir os riscos gerais da carteira. Embora isso possa ser contra intuitivo, adicionar ações de risco à uma carteira conservadora de títulos reduz os riscos, em vez de aumentá-los.

A associação negativa pode ser parcialmente explicada pela exposição cambial. Se a moeda não estiver protegida por reais, a exposição ao dólar americano, euro e iene japonês adiciona benefícios de diversificação. O dólar americano, em particular, tende a funcionar como um ativo de proteção. Durante uma liquidação de ações e títulos de mercados emergentes, uma fuga para a qualidade pode levar os investidores a comprar dólares americanos, o que gera uma valorização da moeda.

Assim, é importante ressaltar que, como ilustra a Figura 2, a correlação entre títulos brasileiros e ações globais tende a ser negativa quando mais importa. Ou seja, quando os títulos brasileiros apresentam desempenho insatisfatório, as ações globais tendem a apresentar boa performance e vice-versa. A correlação condicional negativa – correlação quando os títulos brasileiros perdem valor – é a razão pela qual adicionar ações globais a uma carteira de títulos brasileiros poderia agregar valor considerável – tanto para mitigar riscos quanto aumentar retornos.

Figura 2: Títulos brasileiros e ações globais têm se comportado de maneira muito diferente

O desempenho passado não é um indicador confiável de resultados futuros. Em 31 de julho de 2020. O gráfico mostra o real brasileiro contra o dólar americano, rolando o retorno de 12 meses dos títulos brasileiros, ações globais.

Fonte: T. Rowe Price, Bloomberg Barclays, MSCI. Junho de 2009 a julho de 2020. Bloomberg Barclays EM Moeda local: Brazil Total Return Index Unhedged BRL, MSCI All Country World Index, real brasileiro (taxa de câmbio à vista de USDBRL – preço de 1 USD em BRL).

Impacto da adição de investimentos estrangeiros à uma carteira de ativos brasileiros

Por causa de sua baixa correlação com ativos brasileiros e seus retornos atraentes, os investimentos estrangeiros poderiam beneficiar substancialmente uma carteira com um viés doméstico brasileiro. Para demonstrar os benefícios, consideramos a Carteira 1, que é investida 90% em títulos brasileiros e 10% em ações brasileiras. Em seguida, consideramos a Carteira 2, que está investida 50% em ações globais e 50% em títulos globais com hedge em reais. Combinar 50% da Carteira 1 e 50% da Carteira 2 ou 90% da Carteira 1 e 10% da Carteira 2 teria apresentado retornos mais altos e riscos mais baixos em comparação com a Carteira 1.

A Tabela 1 inclui os cálculos, mostrando o desempenho do backtest e uma seleção de medidas de risco.

Table 1: Características de retorno e risco de diferentes combinações de ativos

Brazil Bonds BrazilEquities Global Bonds Hedged to BRL ACWI in BRL Brazil Cash Brazilian Portfolio 190:10 Bonds: Equities GlobalPortfolio 250:50Bonds:Equities (Hedged) 50:50 Brazil: Global 90:10 Brazil: Global
Return (% p.a.) 13.4% 3.9% 13.7% 16.8% 9.6% 12.7% 15.6% 14.3% 13.1%
Volatility (% p.a.) 5.3% 23.6% 2.9% 15.5% 0.8% 6.0% 7.8% 4.5% 5.3%
5% VaR -1.6% -9.8% -0.2% -5.2% 0.4% -2.3% -2.2% -1.0% -1.8%
5% CVaR -2.3% -15.2% -0.6% -8.8% 0.3% -3.1% -3.9% -1.7% -2.7%
Max Drawdown -4.9% -43.7% -1.6% -21.1% 0.0% -5.5% -7.7% -4.4% -4.7%
Sharpe Ratio 0.72 -0.24 1.43 0.46 0.51 0.76 1.05 0.65


O desempenho passado não é um indicador confiável de resultados futuros.

Fonte: T. Rowe Price, Bloomberg. Bloomberg Barclays EM Local Currency: Brazil Total Return Index Unhedged BRL, Ibovespa, Bloomberg Barclays Global-Aggregate Total Return Index Value Hedged USD Hedged to BRL, MSCI All Country World Index BRL, Brazil Cetip DI Interbank Deposit Rate. Janeiro de 2003 a Julho de 2020.

A Figura 3 mostra o desempenho hipotético de uma carteira investida em ativos brasileiros (Carteira 1), uma carteira investida em ativos globais (Carteira 2) e uma mistura de 90% de ativos brasileiros e 10% de investimentos estrangeiros (90% Carteira 1 e 10% Carteira 2). Adicionar investimentos estrangeiros aos ativos brasileiros teria melhorado o desempenho, tanto aumentando os retornos quanto mitigando os riscos.

Figura 3: Desempenho cumulativo hipotético de diferentes combinações de ativos

O desempenho passado não é um indicador confiável de resultados futuros. As informações presentes neste material técnico são baseadas em simulações e os resultados reais poderão ser significatimente diferentes.

Fonte: Bloomberg Barclays, MSCI. Julho de 2008 a Julho de 2020. O período de tempo é ditado pelo conjunto de dados mais longo disponível para títulos do governo brasileiro. As carteiras são baseadas em retornos totais mensais de índices que representam classes de ativos, assumindo o rebalanceamento mensal para pesos-alvo

Conclusões

Por fim, as razões para adicionar investimentos estrangeiros à uma carteira de ativos brasileiros são convincentes. Potencialmente, permite aos investidores reduzir o risco por meio da diversificação; expande o conjunto de oportunidades de investimento; e fornece uma fonte de crescimento potencial futuro em momentos em que o potencial de valorização dos ativos brasileiros pode ser menor do que era no passado.

*CFA, Head of Multi-Asset Solutions, EMEA and Latam da T. Rowe Price, gestora parceria do BTG Pactual

 

Entrevista: Investimentos no exterior e critérios ASG ganham força na gestão de recursos para EFPC

Entrevista: Investimentos no exterior e critérios ASG ganham força na gestão de recursos para EFPC

Duas tendências que estão ganhando cada vez mais força na gestão de recursos das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) são os investimentos no exterior e a adoção de critérios ASG (ambiental, social e governança). Em entrevista exclusiva ao Blog Abrapp em Foco, Marcus Vinicius Gonçalves, CFA Director e Head da Franklin Templeton no Brasil, analisa o cenário econômico atual e a opção pela ampliação das alocações nos mercados internacionais.

“Acreditamos que os mercados internacionais têm tudo para prover combinações melhores, soluções melhores”, comenta Marcus Vinícius em trecho da entrevista. O gestor comenta a disseminação dos conceitos e práticas ASG na gestão de ativos dos mercados globais. Confira a entrevista na íntegra a seguir:

Blog Abrapp em Foco – Como você vê a internacionalização dos investimentos das EFPCs?

Marcus Vinícius Gonçalves – Com muito otimismo. A redução das taxas de juros nominais e reais no Brasil deve fomentar a busca por alternativas de investimento para atender às necessidades atuariais das EFPCs. Acreditamos que os mercados internacionais

têm tudo para prover combinações melhores, soluções melhores. Algumas classes de ativos no exterior encontram-se em um nível particularmente atrativo de preços, a exemplo das ações norte-americanas de valor. As taxas de juros lá fora estão em patamares muito baixos e o mercado brasileiro ainda prescinde de condições mínimas de liquidez e diversidade para atender ao investidor que até recentemente encontrava na renda fixa soberana o seu único porto seguro.

Blog Abrapp – Quais benefícios os gestores globais podem oferecer para as EFPCs?

Marcus Vinícius – Nossa resposta padrão é “diversificação”, mas creio que vale a pena elaborar um pouco mais o tema para ressaltar as múltiplas dimensões. Em primeiro lugar, a alocação em ativos de países distintos implica naturalmente uma diversificação dos riscos geográficos. Adicionalmente, é possível encontrar nos mercados internacionais uma infinidade de indústrias não representadas no mercado brasileiro – pensemos nos exemplos óbvios de tecnologia e farmacêutica – o que acarreta a diversificação setorial. Os investimentos podem ser realizados em várias moedas, ou seja, os riscos de concentração em apenas uma delas, o Real, que está longe de ser uma moeda livremente conversível, podem ser mitigados. A construção da carteira também pode ser realizada com ativos de natureza distinta, com renda fixa, ações, alternativos, o que significa diversificação por classe de ativos. E assim por diante.

Blog Abrapp – A diversificação também se expressa nas opções de gestores?

Marcus Vinícius – Além dos benefícios listados acima, oriundos da diversificação, podemos citar uma série de outras vantagens que os gestores globais podem oferecer para as EFPCs, dentre os quais a profundidade de análise, a liquidez proveniente de operações em mercados com maior profundidade, a transparência na precificação dos ativos, custos menores derivados de maior escala. Também se pode acessar mercados com regras mais efetivas de compliance que visam a punição efetiva a transgressões comuns em mercados menores, como por exemplo de casos de insider trading, e maior oferta de empresas com características comprovadas de ASG.

Blog Abrapp – Falando de ASG, a demanda por investimentos neste segmento é crescente. Como os fundos internacionais navegam por ele?

Marcus Vinícius – A temática do investimento sustentável, que engloba o conceito ASG e todas as suas implicações, deixou há tempos de ser algo “de nicho” se tornou uma base fundamental da tomada de decisões no cenário de investimentos globais. Segundo a nossa visão, as principais razões para o crescimento são as seguintes: há clara evidência de que os princípios ASG geram um impacto positivo nos retornos ajustados a risco de longo prazo; a implementação evoluiu no sentido de estratégias que focam em atributos positivos, ou seja que vão mais além das “listas de exclusão”; a quantidade e a qualidade de opções de investimento nas mais diversas classes de ativos tem crescido substancialmente; o conceito de dever fiduciário tem evoluído na direção de considerar os aspectos mais amplos da gestão, como a importância dos “stakeholders”; e a demanda pelo tema e pelos produtos, em consequência, segue aumentando consideravelmente, inclusive por parte das novas gerações (“millennials”), que querem investir da forma como vivem.

Blog Abrapp – Qual é o histórico da gestão ASG na asset de vocês?

Marcus Vinícius – Da nossa parte, temos confiança de que a importância da temática ASG tende a beneficiar os gestores como a Franklin Templeton, mais estruturados para lidar nas distintas frentes. No Brasil, podemos citar como exemplos nosso histórico de atuação no campo da governança, que deu ensejo à criação do fundo Franklin Valor e Liquidez há mais de duas décadas, e a preocupação com a diversidade, que nos motivou a lançar recentemente o Vitreo Franklin W-ESG, um fundo de BDRs que alia aspectos ASG com o tema da igualdade de gêneros (o “W” se refere a “Women”, mulheres em inglês). Globalmente, nosso compromisso com a sustentabilidade está igualmente presente em uma série de iniciativas, sendo a mais recente a aquisição da holding Legg Mason, que trouxe para o grupo o conhecimento e experiência de gestoras como a ClearBridge, pioneira global no assunto .

Blog Abrapp – Poderia comentar sobre a recente mudança que possibilitará a listagem de BDRs lastreados em fundos internacionais?

Marcus Vinícius – Em princípio, vimos as mudanças como positivas no sentido de permitir a todos os investidores brasileiros, inclusive o chamado “público em geral”, mais acesso a alternativas de investimento global, ainda que por meio de um veículo que não passa de um “filtro” (o BDR). Não obstante, na nossa visão a alteração criou uma assimetria prejudicial aos investidores, ao privilegiar as ações e os fundos de índice (ETFs) em detrimento dos investimentos de veículos locais, os chamados “feeders”, em fundos ativos no exterior, que ainda seguem disponíveis apenas para o público qualificado. Desta forma, vemos a flexibilização como necessária porém insuficiente, e um certo juízo de valor a respeito dos benefícios dos fundos passivos, que estão longe de ser inequívocos.

Blog Abrapp – Poderia comentar como enxerga o futuro do acesso aos investimentos no exterior?

Marcus Vinícius – Em que pese a preocupação do regulador em manter uma supervisão estritamente local dos veículos de investimento no exterior, esperamos um dia poder chegar a uma condição ideal na qual o investidor institucional possa ter acesso direto aos mercados mais líquidos sem a necessidade dos filtros acima mencionados, que adicionam custos de transação e intermediação desnecessários. O caminho passa pela cooperação e mútua confiança entre reguladores globais e pelos esforços dos agentes no sentido de buscar uma condição de maior transparência na descoberta dos preços.

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